A boca fala do que o coração tá cheio

domingo, 30 de março de 2014

Nadando mudo na mudança do nada



O nada é estranho
Presença infinita
De uma ausência que não falta
Embebida em preciosos tons

O nada é cheio
O nada geme
Aperta
Suspira

O nada vai
O nada dói
Esvazia
Esvai

O nada vibra
O nada morre
A morte vive
E tudo é bom

O nada muda
O nada passa
O mar acalma
E já não é

O nada transmuta
O nada rasga
Acolhe o conflito
E lança Luz

O nada é graça
Martelo necessário
Sempre a desconstruir
Quem precisa ir



domingo, 9 de março de 2014

Foda a vitória dos garis. Mas, só um pouco!




Diante do que se tem observado no Rio de Janeiro nos últimos anos, por intermédio da maior quadrilha política que já conseguimos sustentar desde que Estácio de Sá resolveu nos dar o ar de sua graça, não se pode negar que o feito dos profissionais da limpeza foi um ato heroico e que, certamente, nos deixa uma série de lições. Sim, pra quem vive com oitocentos contos por mês, passar a ganhar mil e cem reais faz toda a diferença!

Além do mais, transpondo o materialismo que geralmente circunscreve as demandas trabalhistas numa sociedade que decidiu eleger o trabalho assalariado como a única e/ou a melhor forma de (sobre) vivência, onde houver um pouquinho de sensibilidade, há de se concordar que o que os garis fizeram foi bonito demais.

Quem me conhece pelo menos um pouco sabe que tenho críticas profundas à escola e ao sistema de educação. Contudo, não posso negar que durante todo o período em que lá estive, tive a oportunidade de aprender coisas valiosíssimas. Extracurriculares, é claro. Estudei em Colégio Militar e, num ambiente repleto de normas e idiossincrasias, aprendi desde cedo, por força da necessidade, um princípio de vida que carrego comigo até hoje: se todo mundo fizer, não dá merda para ninguém!

E isso os garis entenderam. Entenderam e mostraram que uma vontade uníssona é capaz de subverter poderes e mover montanhas. Acreditaram e viram o milagre. Ou, se a sua religião tiver uma estética mais laica, pode-se dizer que, seguindo o curso da simplicidade da vida, conseguiram exatamente tudo o que quiseram. Nem mais, nem menos.

Mas, diante dessa tamanha força manipulada com maestria por gente que historicamente tem suas vidas vampirizadas pelo poder público, uma pergunta – a mais óbvia – não pode deixar de ser feita: o que fez com que os garis, diferentemente dos professores, médicos, bombeiros e até mesmo dos policiais (vale lembrar que, apesar de coibir violentamente a greve dos outros, há exatos 2 anos, as polícias também ensaiaram uma tentativa de greve), saíssem dessa greve percebendo-se como vitoriosos?

Creio firmemente que, muito mais do que o ganho salarial em si, a principal vitória dos garis foi em termos de autoestima. A opção pela greve em pleno carnaval surgiu, inicialmente, como forma de pressionar o governo, mas, muito mais do que isso, o que eles conseguiram, de forma consciente ou por uma conspiração do universo – particularmente, confesso que tendo a preferir as conspirações do universo às nossas muitas razões –, foi a libertação do parasitismo ideológico dos partidos e da obsoleta organização política tradicional. Intencionalmente ou não, a coisa ficou fina.

Com os quadros dos partidos de classe média –  que, geralmente,  percebem a si mesmos como proletários com consciências superiores – imersos na irresistível folia carioca, o povo, finalmente, sem ninguém para conduzi-lo e asfixiá-lo com suas consciências forjadas em bibliotecas, viu-se livre para ser povo. E é somente quando um povo permite encontrar a si mesmo, na horizontalidade de suas relações, em harmonia com as muitas redes que compõe a vida, é que se pode tomar as rédeas da história e escrever o próprio caminho.

Contudo, não posso negar que, se por um lado os garis nos deram um exemplo de organização e força, por outro deixaram bastante a desejar. Passada a euforia inicial da vitória, seria uma temeridade deixar de jogar no ventilador todas as questões que suscitam a greve do pessoal responsável por dar sumiço à nossa porcaria.

Disse, anteriormente, que os garis conseguiram tudo o que quiseram. Isso é ótimo porque revela a força e a coesão social do grupo, mas, de outro modo, acaba por deixar exposta uma outra realidade: os garis quiseram muito pouco. Mais do que isso: nós, enquanto sociedade, tendemos a querer muito pouco. Aprendemos – e tivemos muitos bons mestres nisso – a querer somente o necessário para que tudo permaneça da mesma forma. Domesticamos nossa vontade, de modo que, até em nossas vitórias, nos tornamos inofensivos.

E aqui, sim, creio que a greve dos garis, mesmo tendo sido encerrada com todas as reivindicações atendidas, tem muito mais a contribuir com a nossa construção enquanto povo autônomo, que sabe se colocar não apenas diante do colonizador estrangeiro, mas – antes de tudo – diante do colonizador que habita dentro de cada um de nós. Só por isso, na minha bastante limitada visão, o que os garis vieram fazer foi nos dar uma aula sobre liberdade. Afinal, fazendo o que queremos fazer nos tornamos aquilo que realmente queremos ser. Portanto, não há responsabilidade humana maior do que a que existe em relação àquilo que se deseja.

Nesse sentido, creio que nossos desejos devem ser sempre sondados pelo desejo humano maior de liberdade. Com isso, não se pode deixar passar essa rica oportunidade de refletirmos não apenas sobre o salário dos garis e suas péssimas condições de trabalho – aspectos de necessidade urgente, como já dito –, mas, acima de tudo – creio eu –, sobre a própria natureza do trabalho dos garis. E, para isso, temos que falar de lixo.

Além do genocídio e do estelionato, por exemplo, a produção de lixo constitui uma daquelas atividades que, dentre todas as espécies existentes na Terra, só existe entre os animais racionais. Não há lixo na natureza. É uma invenção 100% humana.

 Penso que nossa grande dificuldade em abordar essa questão reside no fato de que olhar para o nosso lixo implica em olhar para nós mesmos. Ali, na singeleza da sacola podre e fétida, encontramos os resíduos de todas as nossas demandas. Acho, do fundo do coração, que qualquer terapia que se pretenda séria deveria começar pela análise do lixo. Não somos muito diferentes dele. Tudo o que existe lá, existe em nós, com algumas pouquíssimas variações.

Entretanto, fomos ensinados desde cedo que lixo é coisa suja. Aliás, não se pode esquecer que o grande terror que se coloca nas crianças é que elas devem estudar para não se tornarem garis. É o tipo da coisa que quanto menos contato se tiver, melhor. Não é à toa que, em algum momento da história, resolvemos terceirizar (entregar ao governo, nesse caso) o descarte do nosso lixo. Exatamente como fazemos com nossas próprias fezes através do botãozinho mágico. Não fosse tão desonroso, creio delegaríamos a outros a higiene da nossa própria bunda!

O grande problema dessa história é que toda essa alienação implantada e consentida – não acredito em nenhuma espécie de vitimismo – toca na coluna vertebral daquilo que a gente aprendeu a chamar de civilização ocidental: a questão do consumo. A produção e acúmulo de lixo nas nossas cidades são, nesse sentido, como um grande câncer que vem para avisar ao nosso corpo social que o caminho que temos trilhado é um caminho de morte. Num contexto como esse, os profissionais da limpeza, que dão seu sangue e seu suor nas ruas da cidade, levando para bem longe o mau cheiro de nossas casas, acabam por fazer o papel daquele analgésico paliativo, que, apesar de ser fundamental para o paciente ter um pouco de alívio, é incapaz de curar a doença.

Só por isso, a conquista dos garis deve ser recebida, sim, com bastante alegria e servir de inspiração a todos nós, mas não se pode esquecer a boa e velha definição de sistema que o Coronel Nascimento, protagonista de Tropa de Elite II, nos deixou como legado: “o sistema é uma articulação de interesses escrotos”. Se tiver que cortar na própria carne para salvar o corpo, ele o fará sem muitos pudores e ainda transformará isso em capital político.

Assim, minha esperança – em relação a mim mesmo acima de tudo (aprendi outro dia com um amigo que a gente só fala com a gente mesmo) – é que a conquista dos garis nos leve a outro nível de desejo social. Que possamos, juntos, co-criarmos uma cidade(?) onde a liberdade humana tenha expressão legítima e todos os seres realizem suas potencialidades num ambiente propício à inventividade existencial.
             

sábado, 18 de janeiro de 2014

Valeu, Seu Chico!


Seu Chico era velho teimoso
Filho de Cacilda, ele dizia
Velho bom
De coração grande
Carregado no sarcasmo
Sarcasmo, aliás
Que me deixou como herança 

Seu Chico era mandingueiro
Cria da rua
Malandro do bicho
Do tipo que acha que todo mundo é otário

Seu Chico era figura rara
Mão aberta
Provedor por natureza
Generoso como nunca vi

Seu Chico era foda
Pro bem e pro mal
O que tinha de gente boa
Tinha de cabeça dura
Durante todo o tempo em que viveu sobre a terra 
Fez só o que quis

Seu Chico também não era santo
Era velho do tipo gente
Gente que dava jeito na vida
Não jogava capoeira
Mas de ginga dava aula

Homem de fé
Bicho rezador
Quase um feiticeiro

Camarada bom de ter encontrado na vida
Que além das muitas lembranças
Vai deixar enraizado em mim
Um pedaço dele mesmo

Vai em Paz, Seu Chico
Na roda da vida
A morte é só o começo

Que a luz do Astro maior
Ilumine os teus caminhos
E que as alturas te recebam com festa

Por aqui, fica a saudade
E a gratidão eterna 
Valeu, Seu Chico!





sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

As merdas que andei falando (e ouvindo) em 2013



Compromisso, no verão, evapora
O calor é urgente!

A mangueira cheia de manga
E nego se matando de trabalhar

O real é suave – ainda que intenso.

Tá aí uma coisa gostosa: Haxixe!

Telejornalismo: Quanta babaquice!

A Realidade última é milagre, ponto final.

Vida: Um eterno início

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Inferno: nasce na mente, se cria no olho e vaza pela boca.

Chatice militante: desespero fantasiado de moral.

Gosto de quem me faz ler sorrindo.

Andando por aí, descobri que a ortodoxia é a prisão dos que escolheram colocar suas vidas sobre os trilhos do medo. Obviamente, não falo de “uma” ortodoxia, mas do “desejo de ortodoxia”, já que muitos grupos diferentes – e até contraditórios entre si – a reivindicam. As expressões de ódio e o sectarismo provenientes de todos eles – seja na ciência, na religião ou no futebol – são apenas reflexos de suas mentes encagaçadas.  

Pra morrer basta estar morto. O vivo vive.

Milagre não é mágica, é Vida. E Vida é caminho. Um caminho mágico...

Realizar nossa responsabilidade sobre a terra é uma questão de vida ou morte. E o Deus dos vivos certamente nos ajudará.

"Quando alguém deseja a saúde, é preciso antes lhe perguntar se está pronto a suprimir as causas de suas doenças. Só então é possível ajudá-lo." Hipócrates

– Rodrigo, você pode ir à farmácia buscar esse remédio?
– Posso sim, vô!
Conclusão: Vivo num tempo em que Rivotril – a macoinha consumida por gente de bem, que não se mistura com vagabundo nem com viciado, e produzida legalmente pelos nossos anjos da guarda da indústria farmacêutica – custa 10 conto! A cartela com 30! (preço de dar inveja a crackudo). Além disso, as grandes farmácias se transformaram em points bizarros, com cafés que servem vários quitutes, num ambiente da maior descontração. O sujeito já come sua coxinha ali, na sequência dropa um Omeprazol, e, de quebra, ainda faz uma social, pega alguém, dá uma zoada. Todos circulam livremente, não tem PM querendo prender ninguém, nenhum gesto de reprovação, preconceitos, nada! Tranquilão! Tudo sem alteração, transcorrendo na mais perfeita normalidade... Só faltou o serviço funerário pra fechar o ciclo. Uma boa oportunidade pros empreendedores de plantão. Se fizer a parada direitinho, uns caixõezinhos maneiros, bem transados, com design moderno e arrojado, vende que nem água!
Enfim, tá tudo aí... na nossa cara! Quem tem ouvido para ouvir, ouça!

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão" Jesus Cristo

Pra quem não tá acostumado a morrer, a morte deve ser realmente uma experiência assustadora!

De fato, nada mais distante de Deus do que uma fé domesticada com ares de sabedoria humana. O crístico é escândalo do início ao fim. Ou, como diria um camarada: é sem corrimão, parceiro!

Chegando ao final da jornada acadêmica, reafirmo uma antiga certeza: quanta babaquice é a academia!

A pós-modernidade tem várias babaquices, é verdade. Mas, o grande temor que se tem diante dela – especialmente nos círculos mais conservadores – é, também, um forte indicador de que ela traz consigo muita coisa necessária.

Aproveitar o tempo é tudo o que se pode fazer separado de Deus. NEle a simplicidade é tão absoluta, que já não há tempo: apenas o eterno instante.

Definitivamente: mudar de vida pouquíssimo tem a ver com mudar de ideia. A vida é, certamente, algo bem mais sério.

O “adulto” é – certamente – uma das construções sociais mais arrogantes que já se inventou.

“Falar do fim da transcendência no século XX é falar de um cachorro morto que late pra caramba” Remo Filho

Nada melhor para justificar nossos auto-enganos do que identificar a Verdade à ideia ocidental de coerência. Não havendo, obviamente, a possibilidade da coerência total, sentimo-nos autorizados não só a fazer nossas negociatas existenciais, como, nos casos mais graves – quando temos mais medo da destruição do ego –, a negar a própria existência da Verdade. Impossível de ser apreendida pela via da jogatina lógica, essa, por sua vez, encontra-se – de maneira bem mais simples – muito mais próxima de uma atitude existencial que se responsabiliza a cada instante pelo eu em sua condição presente. Condição que – pelo menos por ora permanecendo em um misto de tempo e eternidade – constitui-se em um caminho chamado Vida: o lugar da singularidade máxima, onde o indivíduo se encontra ele mesmo – sozinho – perante Deus. O lugar onde tudo acontece. No fio da navalha...

O desejo de “compartilhar” é, muitas vezes, expressão do desespero proveniente da flagrante fragmentação de quem não vive o que ensina. O verdadeiro compartilhar não é um fim, mas a consequência natural – e, obviamente, gratuita – de uma vida vivida na Verdade.

Ensinar é viver com radicalidade
Ensinar é Viver

Desconfie de todo ensinamento relativo à vida que só pode chegar até você mediante dinheiro. E não, o mundo não vai mudar através do comércio de informações! Ainda que as informações sejam rosas e usem brincos de coração.

Alguém que depende de um sistema para sobreviver, ainda que o critique, no fundo fará de tudo para preservá-lo. Só por isso é patético querer ensinar os outros a resolver os problemas do mundo sem, antes, ter resolvido a própria vida.

“A vida assusta. Vivemos numa sociedade biofóbica, numa cultura biofóbica, que tem medo da vida, que expulsa a vida de perto.” Helena Maltez

“Distrair-se é trair a si mesmo. É dividir-se” Ana Branco

Na dialética da fé, quanto mais se transcende, mais imanente Deus se torna. Não por acaso, Cristo – o Deus-Homem cuja existência não depende de nenhuma mediação humana para ser comunicada – é o paradoxo perfeito e ápice da revelação divina. Só por isso, ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, só posso encontrar o Emanuel – esse Deus conosco – na simplicidade assustadora da terra.

Assim como não se pode confundir um capitão de fragata com um cafetão de gravata, também não se pode confundir valores eternos com valores dos séculos passados. O nome disso não é fé, é conservadorismo.

Numa sociedade que se transformou numa grande loja de departamentos, gerar emprego e acreditar na necessidade de se ter um é o que há de mais importante em termos de valores.

Inconsequência é medir a vida!

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“Um mundo de crescentes demandas não é apenas um mal – só pode ser classificado como um inferno.” Ivan Illich

Se as ideias nunca foram capazes de mudar o mundo, quem dirá o comércio de ideias.

“Não existe ato de maior irresponsabilidade do que dar aula” Remo Filho

O inferno é, certamente, um lugar com muitas obrigações a se cumprir.

 “Mas o pior inimigo que podes encontrar serás sempre tu mesmo; tu mesmo estás à tua espreita em cavernas e florestas.
Solitário, percorres o caminho no rumo de ti mesmo! E teu caminho passa por ti mesmo e pelos teus sete demônios!
Herege, serás para ti mesmo, e feiticeiro e vidente e doido e céptico e ímpio e celerado.
Arder nas tuas próprias chamas, deverás querer; como pretenderias renovar-se se antes não te tornasses cinza!” Nietzsche.

"É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo." Clarice Lispector

A revolução acontecendo e o coração de sacanagenzinha.

A vida – em toda a sua acontecência – não respeita nem mesmo consciência. E como eu gosto!

Só no reino do amor há liberdade. Ideias se vão e fica a verdade: unidade.

Nunca mais acredito em minhas ideias. E, dessa vez, é sério.

“Chega aí, rapidinho” – É o que a vida diz quando, pelo caminho, nos encontra cheios de certezinhas.

Meu corpo é o meu mundo.

“A toxicidade dos segredos pode ser maior do que a insensibilidade dos incultos” Nilton Bonder

“Sem o aval da vida nosso desejo não vai longe e não se transforma em bênção” Nilton Bonder

“Ai do profeta que não vê o que sua jumenta percebe!” Nilton Bonder

“Trabalhamos e engendramos estruturas muito sofisticadas para nos oferecer benefícios quando elas contêm em sim sofisticadas formas de nos prejudicar. E não é apenas roubo material que sofremos. As hierarquias nos roubam a paz porque elas pressupõem políticas e espertezas. Há muita malícia em todas as formas de hierarquia porque sub-reptícia a elas está a tentativa de subvertê-las por parte de alguns e também a de mantê-las a qualquer custo por parte de outros. Nada é mais roubado do que a paz nas estruturas piramidais.” Nilton Bonder

“A diferença entre os prazeres de quem é um fim e de quem é um meio determina formas muito diversas de existência. Enquanto o primeiro se pauta por gratificações constantes e o temor máximo de que a morte as impossibilite, o segundo busca a serventia e teme uma vida que seja inócua e que não cumpra sua função. O desejo clássico quer receber e é temente à morte; o desejo quântico quer doar e é temente à vida.” Nilton Bonder

“Estar em paz com não produzir pode significar grande maestria sobre si e pode representar um serviço de dimensões impressionantes.” Nilton Bonder

“Quem precisa de ‘segredos’ está tentando burlar a vida, corromper a estrutura de bênçãos desse universo.” Nilton Bonder

Quando quero fazer, faço. Quando não quero, (me) debato.

Sou mais quando faço menos.

Sabe aquela sensação de quando você está quase se cagando, chega na porta de casa e pensa: fodeu, não vai dar mais!? Então...me sinto assim a dois meses de me formar.

Quem teme, repele. Quem ama...ama.

Quanto mais indivíduo me sinto, mais me sinto parte do todo. Já a pretensão de universalidade só me leva a segregar.

A percepção de mim mesmo como indivíduo me conduz a sensação de universalidade. Já a percepção de mim mesmo como um ser universal, me leva a um individualismo/tribalismo/grupismo segregador do caralho. É...é assim. A vida é esse lindo paradoxo: tudo que você tenta pegar, corre! Quando solta, você alcança. E tudo isso sem barganha! Agora vai, e dorme com um barulho desses.

“Quero ensinar as crianças. Elas ainda têm olhos encantados. Seus olhos são dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento… a capacidade de se assombrar diante do banal.
Para as crianças, tudo é espantoso: um ovo, uma minhoca, uma concha de caramujo, o vôo dos urubus, os pulos dos gafanhotos, uma pipa no céu, um pião na terra. Coisas que os eruditos não vêem.” Rubem Alves


A feira da Glória é melhor que a Lapa.

Nas minhas muitas buscas pela vida, diversas vezes tive a sensação de ter encontrado o caminho. Hoje sei que não só não encontrei o caminho, mas que o caminho não é encontrável. A vida é o caminho. Um caminho com muitas portas e janelas – incríveis, diga-se de passagem – onde, diversas vezes, nós é que somos encontrados. Leloup estava certo: o contrário do aberto é o inferno. A vida é abertura. Constante. Calemo-nos.

Vejo Deus em lugares que até ele duvidaria.

“Nem só de pão viverá o homem” Jesus Cristo

“Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo;” São Paulo

Gosto dos mistérios. Sempre gostei. Mas nisso Paulo estava certo: ainda que eu fale a língua dos anjos e dos homens, se não tiver amor, nada serei. É ainda mais simples que o simples.

O lugar da vida é onde minha potência se realiza. Seja lá onde isso for.

Uma vida que me leva ao isolamento é uma vida que se perdeu pelo caminho. Anjos também distraem e espiritualidade também serve de entretenimento. O verdadeiro amor só se dá na assombrosa realidade da convivência em igualdade.

A facilidade que temos em nos distrair pelo caminho é tanta que até a simplicidade transformamos em mistério.

Nossas muitas opiniões acerca da vida e do mundo não passam de desabafos acerca de nós mesmos.
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Ao final do curso de filosofia, percebi que minhas ideias, muito mais do que explicar o mundo e as coisas, são a melhor fonte que tenho para me conhecer.

A liberdade é um caminho pessoal e intransferível.

A mente é o corpo. Fodeu!

Cada um tem a vida que escolhe. Enquanto uns matam um leão por dia, eu tô comendo uma jaca por dia. E foda-se!

"Parcamente alimentado e de coisas inocentes, pronto ao vôo e impaciente por voar, por voar longe - tal é o meu modo de ser; como não deveria haver nele algo do modo de ser das aves!" Nietzsche

A principal característica do espírito que busca a conquista, manutenção ou qualquer outra relação promíscua com o poder é a desqualificação do pensamento divergente, identificando-o com a noção – criada por ele mesmo – de desordem. 

A história da filosofia poderia, tranquilamente, se chamar história da arrogância humana.

Velhinho passando na porta da igreja é surpreendido por aquela gostosa e, todo embananado, não sabe se faz o sinal da cruz ou olha a bunda da moça. Na dúvida, faz os dois. Um salve à natureza humana!

Só dá maluco. O que varia é a forma como administramos nossa loucura.

Deus não conhece bem e mal, nem certo e errado. Quem caiu nessa foi a gente.

Exatamente como eu desconfiava: a sensação de abandonar a faculdade é MUITO melhor do que a de se formar.

Substituir a identificação do ser ao pensar, predominante na modernidade, pela identificação do ser ao fazer - um fazer de cunho estritamente utilitário, ainda por cima - não me parece ser um bom caminho. A realidade segue abarcando as duas dimensões. E muitas outras.

Reduzir o fazer ao fazer com as mãos é como reduzir o pensar ao pensar com o intelecto. Duas faces da mesma moeda.

A vida não se deixa engaiolar. O vivo é dinâmico.

Discussão ambiental é algo que se começa pelo prato. Se eu não quiser me tornar ridículo.

Seguir diretrizes alimentares ditadas por outrem nada tem a ver com comer vivo. Comer vivo é – antes de tudo – uma forma de relacionar-se com o ambiente no âmbito da graça.

Já há algum tempo, optei por não comer carne. Mas, identificar a perversidade do SISTEMA DE PRODUÇÃO DE ALIMENTOS ao ato de COMER ANIMAIS não me parece honesto. Especialmente, diante de percepções tão antropomórficas da natureza. Aliás, nada que tenha o moralismo como resultado me parece uma boa opção. Portanto, alegremo-nos e transbordemos nossa felicidade deixando o próximo em paz em suas escolhas. De outro modo, acho que nem a nós mesmos conseguiremos convencer de que estamos tão bem em nossos caminhos.

Existir é impressionante.

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A cidade não é simplesmente uma maneira de configuração do espaço. É um modo de vida. Um modo de vida incompatível com a vida e com a liberdade humana.

Andando por aí, percebi que, ironicamente, o tipo que tende a se relacionar com a natureza antropomorficamente, especialmente "humanizando" animais, geralmente tende também a ter grandes dificuldades de relacionamento com gente. Uma esquizofrenia que leva a tratar animais como irmãos e os irmãos a partir de uma perspectiva existencial de superiorioridade.
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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Comida e existência: escolhendo o combustível que me alimentará durante o caminho



Num momento onde se tem observado a indústria da saúde e do bem-estar crescer vertiginosamente – com sua volumosa quantidade de informação disponível para todos os gostos – cabe a nós – indivíduos que, pelo menos três vezes por dia, lançamos para dentro do corpo alimentos que são responsáveis por atualizar nossa vida na Terra – escolher com qual tipo de energia queremos comungar.
Andando por aí, no chão da vida, descobri que a realidade – e o homem, que a ela pertence – não possui uma essência que lhe serve de fundamento. De outro modo, são as relações – os modos como as pessoas e as coisas se configuram em seu processo de interação – que constituem um conjunto de significados responsáveis por fundar o mundo. Ou, em outras palavras, aquilo que entendemos por realidade.  
Nesse sentido, não havendo a existência de um homem universal – ou de um padrão ou modelo de humano que possa ser universalizado e aplicado a todos os homens – há que se entender que a relação do homem com o alimento – se, realmente, quer-se pensar esse homem em termos de sua liberdade – será sempre uma relação pautada por sua singularidade. Portanto, falar de uma alimentação inteligente como uma espécie de dieta universal que deveria ser seguida por todos os homens não me parece lá a opção mais inteligente.
Uma alimentação inteligente, de outra maneira, é justamente aquela que – de modo oposto a essa nossa tendência ocidental racionalista (e violenta) de universalização de nossas experiências – leva em consideração, primariamente, a nossa singularidade. É uma forma de se relacionar com o alimento que se mantém viva e aberta, procurando não delimitar aquilo que se pode (ou deve) ou não comer, mas colocando-se como uma postura de ativa receptividade na dinâmica de abundância da Terra.
Dessa maneira, creio que a principal característica de uma alimentação que se pretenda verdadeiramente inteligente é, justamente, sua abertura proveniente do entendimento de que o ato de comer é um dos muitos modos de nos relacionarmos com a Terra e com a vida. Obviamente, entretanto, essa abertura – como tudo na vida – não é irrestrita. Qual seria, então, o limite?
A resposta é bastante simples: o limite é a própria vida. Sim, explico melhor.
Creio na vida como um processo dinâmico de autorrealização que tem na geração de mais vida seu único propósito. Em termos nietzscheanos, poderia dizer que o grande papel do homem na Terra é a realização de sua vontade de potência. Ou, para não complicar, simplesmente, a realização de sua potência.
Dentro dessa perspectiva, penso que alimentar-me de maneira inteligente é alimentar-me de forma que a relação com o alimento seja uma relação que me auxilie no desenvolvimento da minha potência. Uma alimentação que permita com que meu corpo – essa dádiva por meio da qual interajo com a Terra – mantenha-se como um canal limpo, livre de obstáculos que impeçam ou dificultem o fluxo de energia que por ele passa, constituindo não somente ele próprio, mas, em especial, também o mundo que o cerca.
Sim, isso mesmo. Cada vez tenho mais clara a sensação de identidade entre o meu corpo e o meu mundo. Não é necessário acreditar em mim, nem me apresentar argumentos contrários. Apenas faça a experiência de mudar a alimentação – passar a comer comida no lugar de produto químico – e observe o que ocorre com sua vida “exterior”. Um intestino que retém fezes, entupindo nosso corpo e impedindo o fluxo natural de energia que o constitui, muito dificilmente será capaz de perceber um mundo onde tudo flui em torrentes abundantes de graça. Por outro lado, um organismo por onde a vida flui livremente, certamente conhecerá cada vez mais esse aspecto de generosidade que a vida carrega.
Além disso, penso que uma comida inteligente é uma comida – antes de tudo – sustentável. E, obviamente, sustentabilidade aqui nada tem a ver com a palavra de ordem do momento, que tem proporcionado bolsos cheios e vida confortavelmente insustentável para muita gente. Quando me refiro a alimento sustentável, não falo de alimentos simplesmente produzidos sem a utilização de agrotóxicos, mas que são vendidos a preços altamente especulativos, que só servem para a criação de mais um mercado de luxo totalmente conformado à velha dinâmica do capital. Também não falo daquela fruta ou daquela semente da moda que, importadas de terras extremamente distantes e com características totalmente diversas da minha – e que, portanto, não serve para me atualizar em relação ao espaço em que eu vivo –, acabam se tornando extintas em seus locais de origem, prejudicando a vida daqueles que dela realmente precisam. Do que falo, então?
O alimento sustentável, no meu entendimento, é aquele que está perto de mim. Mais uma vez, simples assim (e mais uma vez, continuo falando de alimento e não de químicas bizarras produzidas para terem sabores incríveis e me tornarem dependente de uma indústria perversa e milionária). Assim, diria que, para mim – morador do Rio de Janeiro nesse início de verão –, não há nada mais inteligente, nesse momento, do que comer manga, por exemplo. A sensação que tenho é que o mundo se transformou numa grande mangueira. É o que a Mãe quer me oferecer agora e aquilo que eu, de braços abertos, sorriso no rosto e água na boca recebo com gratidão.
O caso de um esquimó, entretanto, que vive no inóspito ambiente de terras cobertas por gelo, ou mesmo de alguma comunidade ribeirinha brasileira, cercada pela abundância das águas com seus muitos peixes, penso que já seriam situações completamente distintas e que sugerem outras formas de relacionamento com o meio, que levem em consideração as especificidades daquilo que, gratuitamente – isso é importante –, a natureza oferece. Nos contextos apresentados, por exemplo, não me pareceria razoável sugerir ao esquimó uma dieta à base de manga, nem, tampouco, motivado pela antropomorfização da natureza de que tanto gostam, especialmente, os homens urbanos, sugerir àqueles que identificam suas vidas às águas e à pesca uma alimentação onde o peixe não esteja presente.
Assim, se tivesse que escolher uma palavra para designar um modo de alimentação que julgo inteligente – e a inteligência aqui vai, obviamente, muito além da racionalidade –, creio que falaria de uma alimentação relacional. Relacional como a vida. Seria, nesse sentido, uma alimentação que se percebe não como algo dado, pronto, fechado e encerrado nos muitos conceitos e experiências vividos por outros em suas singularidades, mas uma alimentação que – em consonância com a vida – constitui-se como abertura. Uma alimentação que não apenas me proporcione experiências espirituais fantásticas, mas que, acima de tudo, me torne um ser humano melhor no convívio com os outros. Enfim, uma alimentação que me permita, diariamente, manter-me não apenas biologicamente vivo, mas vivo em toda complexidade do meu ser, permitindo-me, a cada momento, realizar minha potência como humano e sustentar a singularidade do meu próprio caminho. 

sábado, 21 de dezembro de 2013

Racionalidade e decadência


A racionalidade é um modo de abertura do mundo que oculta os seus próprios pressupostos. A totalidade da realidade aparece, mas a partir da lógica do ser simplesmente dado, que pressupõe que tanto o homem quanto os demais entes sejam algo em si, ou seja, destituídos de uma relação ontológica conformativa prévia. O próprio mundo oculta-se, tendo em vista que tudo aparece sob o esquema do em si. Porém, se o mundo só se abre através do homem e é mobilizado pelo seu caráter de poder-ser, então a racionalidade sem travas passa a ser um obstáculo para o próprio homem. A razão disto é clara. A racionalidade aparece por causa e para o poder-ser do homem. À medida que o homem relaciona-se com tudo e todos para assegurar-se do seu curso e dominar os eventos, ele conforma-se de acordo com o mundo racional que faz antecipar tudo e todos. Também ele passa a ser categorizável. Devido a essas características do mundo “racional”, o homem passa a ver-se como ser simplesmente dado, o que o leva à pretensão de supressão do seu caráter de poder-ser. Seus comportamentos passam a ser condicionados por estruturas categoriais, o que favorece a experiência de alienação de sua condição. O curso de sua existência pode ser previamente decidido e o homem passa a ser somente um exemplo de um modelo cujas regras antecipadamente já são sabidas. Para Heidegger, esse tipo de existência não é contraditória. Sendo poder-ser, o homem é o único ser que poder ser dissonante de si mesmo. Tal tipo de existência é chamado por Heidegger de existência imprópria. Ela é o modo mais comum de desdobramento existencial, pois nela a existência é facilitada, já que suprime a tarefa existencial primária de ter de conquistar a cada vez o seu ser em resposta à nadidade inerente ao poder-ser. O mundo impessoal é sempre “racional”, visto que o curso de tudo já é previsível e o homem lida taticamente com tudo, especialmente consigo mesmo. Suas possibilidades de ser já estão decididas e o modo de lidar com os entes também. Tudo se torna seguro e a angústia não ganha aí a sua voz. Por isso, “o ser dos entes em sua existência é então compreendido como ser simplesmente dado”.[1] A absorção do homem nesse mundo racionalizado impessoal é a sua decadência[2]. Decadência, antes de ser um conceito moral, é um modo próprio do ser humano. Decadente, o homem não responde ao seu poder-ser de forma singular, mas impessoalmente. Existe segundo a lógica antecipadora da racionalidade de um mundo que a trata como uma mera função de si mesmo. Por mais que use utensílios, o homem não os compreende como tais. Tudo aparece segundo a ideia de em si, e a existência se traduz em comportamentos que funcionalizam a perspectiva de antecipação do curso de tudo e de todos. A previsibilidade passa a retirar a insegurança constitutiva da existência humana.
Com as informações anteriores, sabe-se que o homem não é a priori animal racional. A racionalidade passa a ser um modo de ser que operacionaliza um tipo determinado de existência, qual seja, a existência decadente, que visa regulamentar os comportamentos e obscurecer a singularidade humana e o poder-ser que a determina.

In: Bastos, Aguinaldo de. Ontologia da violência: o enigma da crueldade / Aguinaldo de Bastos, Alexandre Marques Cabral, Jonas Rezende. – Rio de Janeiro: Mauad X, 2010.






[1] HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis/Bragança Paulista: Vozes/São Francisco, 2006.  §43.
[2] Cf. Ibid., §38

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Valoração moral e decadência em Nietzsche


1 - Introdução

            Apesar de ter rejeitado a existência de uma natureza humana metafísica que conferisse ao homem qualquer sentido de unidade, fazendo-o sentir-se pertencente a uma humanidade, Nietzsche – como que por ironia do acaso – acabou por dedicar bom tempo de seus estudos ao desbravamento de uma questão compartilhada por grande parte dos seres humanos: as origens do bem e do mal.
            Tendo como referência principal a sua Genealogia da Moral, esse breve trabalho tem como objetivo a apresentação de alguns insights nietzscheanos a respeito da origem desses valores, e, especialmente, sua relação com a decadência do homem moderno. Para isso, serão apresentadas não só algumas considerações preliminares sobre a concepção nistzscheana do homem e do mundo, como, por fim, será oferecida, a título de conclusão, uma crítica onde se buscará questionar alguns pontos abraçados pelo filósofo alemão ao longo da construção de seu argumento.

2 – O homem e o mundo como Vontade de Potência

            Se há um conceito em Nietzsche que pode ser considerado central, permeando toda sua obra, certamente é o de Vontade de Potência. Numa espécie de radicalização da tese de Schopenhauer – de que a essência mais íntima do ser é a vontade de viver –, Nietzsche irá entender a vida como força, e uma força que tem em si mesma o seu ponto de aplicação. Em outras palavras, poder-se-ia dizer que viver, para Nietzsche, é sempre viver mais. Não em um sentido de longevidade, mas estando mesmo acima da maneira como se vive: é a vontade de viver como pura afirmação de si.
            Essa ideia será tão importante na filosofia nietzschena que será encontrada tanto como um conceito cosmogônico, quanto como um conceito histórico ou psicológico. O mundo, a história e o próprio homem são, assim, pensados por Nietzsche como um eterno devir resultante da ação de uma multiplicidade de forças. Em um de seus fragmentos póstumos, ele expõe essa ideia de forma bastante clara:

E sabeis o que é para mim ‘o mundo’? Devo mostrá-lo a vós em meu espelho? Este mundo: uma monstruosidade de força, sem início, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força, que não se torna maior nem menor, que não se consome, mas apenas se transmuda, inalteravelmente grande em seu todo, uma economia sem despesas e perdas, mas também sem acréscimo, ou rendimentos, cercada de ‘nada’ como de seu limite, nada de evanescente, de desperdiçado, nada de infinitamente extenso, mas como força determinada posta em um determinado espaço, e não em um espaço que em alguma parte estivesse “vazio”, mas antes como força por toda parte, como jogo de forças e ondas de força ao mesmo tempo um e múltiplo, aqui acumulando-se ali minguando, um mar de forças tempestuando e ondulando em si próprias, eternamente mudando, eternamente recorrentes, com descomunais anos de retorno, com uma vazante e enchente de suas configurações, partindo das mais simples às mais múltiplas, do mais quieto, mais rígido, mais frio ao mais ardente, mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez voltando da plenitude ao simples, do jogo de contradições de volta ao prazer da consonância, afirmando a si próprio nessa igualdade de suas trilhas e anos, abençoando a si próprio como aquilo que tem de retornar, como um vir-a-ser que não conhece nenhuma saciedade, nenhum fastio, nenhum cansaço –: esse meu mundo dionisíaco do eternamente-criar-a-si-próprio, eternamente-destruir-a-si-próprio, esse mundo secreto da dupla volúpia, esse meu ‘para além de bem e mal’, sem alvo, se na felicidade do círculo não está nenhum alvo, sem vontade, se um anel não tem boa vontade consigo mesmo –, quereis um nome para esse mundo? Uma solução para todos os seus enigmas? Uma luz também para nós, vós, os mais escondidos, os mais fortes, os mais intrépidos, os mais da meia-noite? – Esse mundo é a vontade de potência – e nada além disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência – e nada além disso! (NIETZSCHE, 1978, p.397) [1].

            Obviamente, essa afirmação encontra-se assentada sobre alguns axiomas. O primeiro, e que grita aos olhos, é a negação da existência de um Deus criador. Além disso, a quantidade total de força existente nesse universo de matéria não-criada não pode ser infinita, mas – antes – deve ser limitada. É somente a partir daí que Nietzsche poderá afirmar a eternidade do mundo e seu fluxo circular constante que não objetiva nenhuma finalidade específica.
            Assim, lançados rapidamente os pressupostos da filosofia nietzschena – mas de forma suficiente para o intuito deste trabalho –, pode-se partir com mais segurança para a análise das origens dos valores morais propriamente dita.

3 – As origens do Bem e do Mal

            Nietzsche inicia sua dissertação primeira da Genealogia da Moral dirigindo uma dura crítica aos psicólogos ingleses. Para ele, estes – como enigmas vivos – teriam algo mais interessante a revelar do que seus próprios livros, que careciam de um espírito histórico.
            O problema da genealogia da moral traçada por esses psicólogos ingleses é apontado por Nietzsche logo em seu início. Quando pretenderam precisar a origem do conceito e do valor “bom” – associando-o a uma ideia de utilidade das ações não egoísticas, que com o tempo teria sido esquecida, fazendo com que o conceito fosse assimilado por costume como “bom em si mesmo” –, eles não consideraram nem mesmo que o próprio sujeito – e, especialmente, o sujeito moderno, com seu pujante livre-arbítrio – é uma criação, uma invenção. E, para Nietzsche, não levar isto em consideração no estudo das origens da moral representaria um enorme equívoco (Cf. GLIKSMAN, 2001, p. 119) [2].
            Segundo Nietzsche, a maneira de agir e não agir do homem, assim como sua felicidade ou infelicidade, tem uma profunda relação com a fisiologia, afetando de forma surpreendente o pensamento (Cf. Ibidem, p.119,120). Assim é que, partindo de uma análise etimológica, ele irá negar toda essa construção de valores que se baseia na utilidade e no esquecimento, e irá apresentar o “bom” não como uma ideia que fundamenta as ações dos homens, mas identificando-o às próprias ações dos homens bons. Para ele,

o juízo ‘bom’ não emana daqueles a quem se prodigalizou a ‘bondade’. Foram os mesmo bons, os homens distintos, os poderosos, os superiores que julgaram ‘boas’ as suas ações; isto é, ‘de primeira ordem’, estabelecendo esta nomenclatura por oposição a tudo quanto era baixo, mesquinho, vulgar e vilão (NIETZSCHE, 2011, p.32) [3].

Assim, o homem não é definido moralmente por sua ação, mas – ao contrário – é sua ação que, ao revelar sua força, se apropria do ato como bom. Mas quem teriam sido esses primeiros homens bons?
            Em toda a filosofia nietzscheana há uma marca muito forte não só desse espírito histórico – historicista até – como, especialmente, de uma dicotomia que separa os homens em duas espécies, ou melhor, em dois tipos: o homem da moral nobre e o homem da moral escrava.
            O homem bom, dotado dessa força criadora e dessa vontade de potência que domina, obviamente, é identificado ao homem da moral nobre. A partir de seus estudos filológicos de análise etimológica do valor do “bom” em diferentes culturas, Nietzsche não só entendeu que o “bom” sempre esteve ligado a nobre, aristocrático, àquele privilegiado, como concluiu que sua criação como valor moral se deu como forma de expansão do poder, aumento do domínio sobre os escravos e, acima de tudo, como forma de demarcar linguisticamente aquilo que está dentro e aquilo que está fora dos interesses (Cf. EIZIRIK & TREVISAN, 2006, p. 366) [4]. Dessa forma, o que aparece por trás dessa ideia de valoração não é uma utilidade que, de antemão, pressupõe uma moderação, nem uma valiosidade, como afirmavam os historiadores da moral, mas – de outro modo – o poder que uma casta mais nobre possui de criar valores que demarquem hierarquias (MOREIRA, 2010, p. 189) [5].

É óbvio que as designações morais de valor, em toda parte, foram aplicadas primeiro a homens, e somente depois, de forma derivada, a ações: por isso é um grande equívoco, quando historiadores da moral partem de questões como "por que foi louvada a ação compassiva?". O homem de espécie nobre se sente como aquele que determina valores, ele não tem necessidade de ser abonado, ele julga: "o que me é prejudicial é prejudicial em si", sabe-se como o único que empresta honra às coisas, que cria valores. Tudo o que conhece de si, ele honra: uma semelhante moral é glorificação de si (NIETZSCHE, 2001, p. 172-3) [6].

            Assim, se o homem da moral nobre tem esse poder de criar valores e demarcar hierarquias de forma positiva, o mesmo não acontece com o homem da moral escrava. Enquanto o primeiro – com seu estado de alma elevado que o distingue e determina hierarquias – age de forma afirmativa, simplesmente desprezando e afastando de si os seres que exprimem o contrário desse estado de orgulho, considerando-os apenas como ruins, o segundo – por sua vez – age somente de forma reativa e a partir de uma negação.
            É extremamente importante ressaltar aqui que essa reatividade da moral escrava tem como fundamento o ressentimento. O homem da moral escrava é, para Nietzsche, antes de tudo, um ressentido.

Relacionado a um problema fisiológico, o ressentimento serve para evidenciar aquele homem sem forças para reagir diante dos imprevistos e das dificuldades da vida e que, também, não consegue digerir os maus sentimentos, aqueles sentimentos nocivos, venenosos, produzidos por sua incapacidade de realizar “a verdadeira reação, a dos atos (NIETZSCHE, 2006, p. 29 apud MOREIRA, Op. Cit., p. 188).

            Assim, não podendo viver de forma espontânea e ativa, esse indivíduo ressentido passaria a viver em função de “um fora”, de “um outro”, de “um não-eu”, transformando esse Não em seu ato criador (Cf. MOREIRA, Op. Cit., p 188).
É de fundamental importância perceber que a distinção que se faz aqui não é mais entre bom e ruim, como no caso da moral nobre, mas entre bom e mau. O homem da moral escrava para se perceber como bom depende – antes – da afirmação do outro como mau. É a clássica lógica do tu és mau, logo eu sou bom.
Como consequência desse ressentimento e dessa sensação de impotência diante da realidade, surge no homem da moral escrava o desejo de vingança em relação àqueles que o desprezaram. E é exatamente dentro desse contexto de ideias que Nietzsche irá relacionar o advento do cristianismo à decadência do homem moderno.
Em seu entendimento, teria sido o cristianismo o principal responsável pela transmutação conceitual dos valores bom e ruim, provenientes da moral nobre, nos conceitos bom e mau, característicos da moral escrava. Sustentar essa posição, entretanto, não foi fácil. Nietzsche teve que, para isso, não só recorrer às raízes judaicas do cristianismo, como, principalmente, postular o povo judeu como “o povo sacerdotal do ressentimento par excellence” (NIETZSCHE, 2006, p.44, apud MOREIRA, Op. Cit., p.189). Segundo ele:

Na história universal, os grandes odiadores sempre foram sacerdotes, também os mais ricos de espírito — comparado ao espírito de vingança sacerdotal, todo espírito restante empalidece. A história humana seria uma tolice, sem o espírito que os impotentes lhes trouxeram — tomemos logo o exemplo maior. Nada do que na terra se fez contra “os nobres”, “os poderosos”, “os senhores”, “os donos do poder”, é remotamente comparado ao que os judeus contra eles fizeram; os judeus, aquele povo de sacerdotes que soube desforrar-se de seus inimigos e conquistadores apenas através de uma radical tresvaloração dos valores deles, ou seja, por um ato da mais espiritual vingança. Assim convinha a um povo sacerdotal, o povo da mais entranhada sede de vingança sacerdotal. Foram os judeus que com apavorante coerência ousaram inverter a equação de valores aristocrática (bom = nobre = poderoso = belo = feliz = caro aos deuses), e com unhas e dentes (os dentes do ódio mais profundo, o ódio impotente) se apegaram a esta inversão, a saber, “os miseráveis somente são os bons, apenas os pobres, impotentes, baixos são bons, os sofredores, necessitados, feios, doentes são os únicos beatos, os únicos abençoados, unicamente para eles há bem aventurança — mas vocês, nobres e poderosos, vocês serão por toda a eternidade os maus, os cruéis, os lascivos, os insaciáveis, os ímpios, serão também eternamente os desventurados, malditos e danados!... (NIETZSCHE, 1998, p.25-6) [7].

Assim, a partir dessa transmutação dos conceitos, a aristocracia sacerdotal teria criado valores em forma de cura para as supostas doenças da humanidade. E, dentre esses remédios, certamente, o principal teria sido a própria ideia de Deus e de verdade suprema. Com isso, associando a ideia de verdade à de juízo de valor, a aristocracia sacerdotal teria triunfado, codificando e simplificando o mundo em detrimento da multiplicidade, da variedade e do movimento.
O grande problema, para Nietzsche, é que esse tipo metafísico de conhecimento teria como único objetivo criar uma identidade e uma unidade que a vida não tem. Em seu entendimento, o conceito de verdade parte de uma avaliação da vida que nega o fluxo, o movimento, a guerra de forças. Portanto, a verdade não poderia ser usada como critério de avaliação da vida. Só a própria vida possuiria esse critério (Cf. MOREIRA, Op. Cit., p.190).
O que Nietzsche está – ousadamente – afirmando é que aquilo que ele denomina decadência do homem moderno teve início com os judeus e sua rebelião escrava na moral, e triunfou com o amor cristão – este não como uma negação do ódio judeu, mas como coroamento dele.

E o que se vê com essa cultura do ressentimento é a vontade de dominar o animal de rapina que existe no homem, dominá-lo e depois de vencidos e dominados os ideais do homem nobre, conservar suas ficções como os verdadeiros objetos da cultura promovendo um autêntico retrocesso para a humanidade. E é a isso que hoje devemos temer, ao “homem manso”, que forjado por essa cultura possa se sentir como apogeu e meta. Para Nietzsche, não se pode ter mais amor e respeito ao homem enquanto este se mantiver preso a esta cultura (Ibidem, p. 191).

4 - Conclusão

O que fica claro ao longo de todo esse empreendimento de busca das origens dos valores morais é que Nietzsche – à semelhança dos psicólogos ingleses à quem dirige suas críticas – também acaba se mostrando um grande enigma vivo com muito mais revelações a oferecer do que seus próprios livros.
Filho de pastor luterano, o filósofo alemão deixa transparecer ao longo de sua filosofia todos os conflitos inerentes a uma vida que se desenvolve no interior de um ambiente religioso formal e altamente opressor. Não por acaso, nem por alguma evidência histórica, seu pressuposto fundamental é a negação da existência de Deus e a consequente eternidade do mundo.
Assim, partindo desse ponto de vista, não é de se admirar que toda uma filosofia que se sustenta sobre a separação dos homens em tipos, naturalizando a dominação dos mais fortes sobre os mais fracos, tenha partido – ela mesma – de uma negação, ironicamente a marca principal do homem ressentido.
Como afirma Mário Ferreira dos Santos em seu prefácio à Genealogia da Moral – obra da qual também é tradutor –, se as acusações que os adversários de Nietzsche lhe fazem não procedem e, muitas vezes, devem, com razão, serem consideradas injustas,  não procediam também as acusações disparadas por Nietzsche àqueles a quem tanto atacou. Não todas, pelo menos.

Se não é Nietzsche o ‘louco degenerado’, porque havia grande religiosidade em sua alma, como o demonstrou em ‘Zaratustra’ e tivemos naquela obra a oportunidade de provar, se ele não ‘podia crer’, na verdade, o de que descria era a caricatura que ele formava, seguindo, neste ponto, as influências de tantos inimigos do cristianismo. E, aqui, foi ele bem frágil e ‘bem rebanho’, pois deixou-se acaudilhar por todos os grandes acusadores que inflamaram, através dos tempos, uma religião que, se deu homens que não estavam à sua altura, não deixa, contudo, de representar o que de mais alto o homem conheceu (NIETZSCHE, 2011, p.15)

Dessa forma, ao dedicar boa parte de seus escritos ao ataque do cristianismo, pode-se concluir que, baseado em seu próprio argumento, restou como saída ao filósofo alemão apenas duas possibilidades: reconhecer a incoerência e o reducionismo de uma filosofia asfixiada pela história; ou, de outro modo, confessar a si mesmo como um representante – empenhado – da moral escrava.

5 - Referências Bibliográficas:

- EIZIRIK, M. F. & TREVISAN, J. F.. Da Genealogia da Moral à Moral do Ressentimento: A Crueldade nos Bons Costumes. In: Psicologia, ciência e profissão, vol. 26, Nº 3. Brasília, Setembro de 2006. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/pcp/v26n3/v26n3a03.pdf > Acesso em: 10 outubro 2012.
- MOREIRA, Antônio Rogério da Silva. Nietzsche: o Ressentimento e a Transmutação Escrava da Moral. In: Argumentus Revista de Filosofia, Ano 2, N°. 3 – 2010. Disponível em: <http://www.filosofia.ufc.br/argumentos/pdfs/edicao_3/25.pdf  > Acesso em: 10 outubro 2012.
- NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. [Tradução: Paulo César de Souza]. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
- ____________________. Genealogia da Moral. [Tradução: Paulo César de Souza]. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
- ____________________. Genealogia da Moral. [Tradução: Mário Ferreira dos Santos]. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
- ____________________. Obras incompletas. [Tradução: Rubens Rodrigues Torres Filho]. São Paulo: Ed. Abril, 1978.




[1] NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. [Tradução: Rubens Rodrigues Torres Filho]. São Paulo: Ed. Abril, 1978.
[2] GLIKSMAN, Selmo. A ética do sobre-humano. 2005. Tese de Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2001.
[3] NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. [Tradução: Mário Ferreira dos Santos]. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
[4] EIZIRIK, M. F. & TREVISAN, J. F.. Da Genealogia da Moral à Moral do Ressentimento: A Crueldade nos Bons Costumes. In: Psicologia, ciência e profissão, vol. 26, Nº 3. Brasília, Setembro de 2006. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/pcp/v26n3/v26n3a03.pdf > Acesso em: 10 outubro 2012.
[5] MOREIRA, Antônio Rogério da Silva. Nietzsche: o Ressentimento e a Transmutação Escrava da Moral. In: Argumentus Revista de Filosofia, Ano 2, N°. 3 – 2010. Disponível em: <http://www.filosofia.ufc.br/argumentos/pdfs/edicao_3/25.pdf  > Acesso em: 10 outubro 2012.
[6] - NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. [Tradução: Paulo César de Souza]. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

[7] NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. [Tradução: Paulo César de Souza]. São Paulo: Companhia das Letras,1998.