A boca fala do que o coração tá cheio

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Carta a uma professora de educação



Professora,

Diante do ambiente de franqueza que se deu na última aula, resolvi escrever esse trabalho em forma de carta. Assim, me sinto mais a vontade para colocar o que penso, sem ter que ficar preso às formalidades de textos acadêmicos, que – até onde posso perceber – têm como função principal proteger o autor através dos incontáveis recursos de argumentação retórica. Creio que só se defende quem tem medo, ou quem acredita ter algo a perder.

Assim, sem perder muito tempo, gostaria de, simplesmente, compartilhar com a senhora a patética situação em que me sinto quando tenho que – por força de uma avaliação – ler um texto que não quero. Chego a rir sozinho de mim mesmo. Surgem mil coisas para fazer: pesquisas dos mais variados assuntos na internet, uma fome incontrolável que justifica pausas para inúmeros lanches, leitura de outros livros, cochilos, etc. Enfim, qualquer coisa que me deixe longe da obrigação imposta. Por fim, vendo o prazo aproximar-se, reúno forças do fundo da alma e vou, finalmente, fazer o que não quero, com a velha pergunta na cabeça: por que as coisas têm que ser assim?

Hoje, entretanto, felizmente, apesar do peso de ainda jogar um jogo no qual não acredito, não creio que as coisas – de fato – tenham que ser assim. Sei que podem ser diferentes. Descobri não só que o atual antigo modelo de educação não é uma fatalidade, mas, de outro modo, constitui-se numa opção – e aqui não falo em sentido político, mas individual: onde cada educador escolhe cotidianamente, ao entrar em sala de aula, reproduzir um sistema evidentemente falido –, como, também, que já há gente assumindo suas responsabilidades diante da vida e construindo novas formas de interação com o conhecimento e, especialmente, com o próximo, essa categoria que não cabe em nenhum ambiente bipartido entre professores e alunos que, geralmente, constitui as instituições de ensino, sejam elas escolas ou universidades.

Passemos então ao texto.

Se antes de ler, não queria lê-lo, agora que o li, gostaria menos ainda de tê-lo lido. Pelo menos, do ponto de vista emocional, teria sido uma boa economia.

O texto, que se propõe a falar sobre cognição, inicia-se definindo-a como “a capacidade humana de entender, julgar e interpretar o mundo”. Esse entendimento, por sua vez, estaria referido às “atividades mentais envolvidas na aquisição, processamento, organização e uso do conhecimento”, como afirma o autor logo em seguida. Até aí, nada demais. A surpresa maior ficou por conta do tópico seguinte: desenvolvimento cognitivo do adolescente segundo Piaget.

Ao reduzir, a partir de suas hipóteses, o adolescente a um ser lógico-formal, Piaget acaba por transformá-lo, além de lógico-formal – que já é motivo suficiente de ofensa –, num ser egocêntrico, inexperiente e que encontra sua realização quando progride até a vida adulta, onde, enfim, se depara com o mundo real.
Segundo ele, o adolescente viveria numa espécie ponto de tensão entre o seu idealismo egocêntrico-sonhador-lógico-formal e o mundo real, que seria atingido tendo o trabalho como principal mediador. Obviamente aqui, tanto trabalho, quanto mundo real, apesar de serem colocados como se tivessem uma elevada “densidade ontológica”, apresentam significado, evidentemente, bastante mais restrito.

Assim, ao enxergar o adolescente como esse ser inferior caminhando em direção à iluminação da vida adulta, Piaget consegue ir além e relaciona a incapacidade do adolescente de compreender os absurdos do “mundo real” não com o estado de total fragmentação interna e total desconexão de suas relações fundamentais (alienação da própria vida) em que vive a maior parte dos adultos – correndo de um lado para outro atrás de dinheiro, conhecimento, poder, ou qualquer outra coisa que alimente seus egos, a essa altura da vida já bem desenvolvidos e cristalizados –, mas, sim, uma vez mais, com seu ponto de vista lógico e egocêntrico de apreensão do mundo. Não me lembro a última vez que li algo tão cientificamente babaca. Com o perdão da expressão.

Pascal diz que toda a infelicidade dos homens deriva do fato de nós não conseguirmos permanecer em nossos quartos sozinhos. Quando leio coisas desse tipo, tenho a clara sensação de que se conseguíssemos realizar esse ato da solidão em nosso quarto, não só seríamos mais felizes, como não haveria ciência. Pelo menos não essa esquizofrenia a que chamamos ciência.

Lembrei ainda de Clarice Lispector: “Depois que descobri em mim mesma como é que se pensa, fazendo comigo mesma negociatas, nunca mais pude acreditar no pensamento dos outros”.

Se Piaget soubesse disso, talvez pudesse ver o adolescente não como esse ser de categoria inferior, mas como alguém que, simplesmente, ainda não aprendeu a adulta arte do autoengano. Alguém que olha para a vida e enxerga possibilidades ao invés de acreditar nas próprias cadeias que constrói para si. E por isso sonha e questiona.

“(...) o ponto central do processo de descentração está no ingresso no mundo ocupacional ou início do treinamento profissional. O adolescente torna-se um adulto quando ele assume de fato um trabalho. Este é o momento em que ele se passa de um reformador idealista para um empreendedor. Em outras palavras, o trabalho afasta o pensamento do perigo do formalismo e o traz de volta à realidade (INHELDER e PIAGET, 2003, p.346)”.

Afirmação triste e que – creio – dispensa comentários.

Achei interessante o momento em que – em meio a tantos absurdos – levanta-se a ideia de reciprocidade, respeito mútuo, relações dialógicas e coisas do tipo. Ouvi certa vez, e guardo sempre comigo, a ideia de que diálogo verdadeiro só é possível entre seres humanos, nunca entre papéis sociais. Portanto fica a questão: como falar de respeito, diálogo e reciprocidade em ambientes claramente marcados pela divisão, seja ela social ou dada em qualquer outro nível?

Em outra citação, o texto afirma o seguinte:

“A sociabilidade do adolescente se desenvolve através da interação com outros adolescentes. A interação social dos adolescentes tem como intenção básica a discussão. Quer em dupla, quer em pequenos grupos, o mundo é reconstruído em comum, e o adolescente se perde em discussões infindáveis como um meio de combater o mundo real” (PIAGET apud WADSWORTH, 2003, p.68).

Aqui fiquei na dúvida e tive que voltar e ler de novo. Particularmente, não conheço um adolescente que encontre prazer em discussões infindáveis sobre meios de combater o mundo real. Esse tipo de sofisticação estéril é, sim, a grande marca da academia, da política ou de qualquer outra instituição que acredita ser possível mudar o mundo sem mudar o ser. Os adolescentes, não. Parecem-me seres bem mais simples: encontram prazer na praia, no rolé de skate e no fazer nada.

O tópico seguinte, que aborda o desenvolvimento cognitivo na adolescência a partir da teoria histórico-cultural, é, certamente, bem menos agressivo e opressor que o primeiro, mas, como o próprio nome já revela, apenas mais uma redução: agora não mais lógico-formal, mas histórico-cultural.

Dessa maneira, esse enfoque irá privilegiar “o contexto do sujeito na aprendizagem e a materialidade do mundo que o cerca”. Segundo Vygotsky, é na objetividade deste mundo que as experiências se realizam e adquirem significados. Se a “objetividade deste mundo” não estivesse circunscrita apenas aos aspectos sócio-histórico-culturais da realidade até que poderíamos ter algo interessante.

Logo de início, a frase “Hoje se espera que os candidatos à humanidade desenvolvam habilidades como usar o computador, dirigir, usar celular, etc.” gerou em mim a curiosidade de saber quem – ou o quê – seriam esses candidatos à humanidade. Com todo o desgaste emocional da leitura da primeira parte, resolvi ignorar.

Apesar de, aparentemente, ter a intenção de romper com a concepção adultocêntrica, essa outra abordagem permanece ainda bastante presa a ela na medida em que eleva a formação de conceitos ao patamar daquilo do que há de mais elevado em termos de apreensão do mundo. Chega-se, inclusive, a ser feita a engraçada afirmação de que “as funções mentais superiores – percepção, atenção seletiva, memória mediada, pensamento, linguagem e imaginação – que têm por finalidade o desenvolvimento do pensamento ao se integrarem na formação de conceitos, obedecem à lei genética geral do desenvolvimento cultural”. À título de brincadeira, até serve para dar uma descontraída, mas se for levada a sério, fica difícil de engolir.

O interessante de perceber é que tanto a primeira teoria quanto esta têm em comum a concepção – velada, obviamente – do homem como um ser fragmentado. Enquanto na primeira essa fragmentação se revela no processo de construção de conformidades e autoenganos que o autor chama de adaptação ao mundo real, aqui, nesta, a condição humana é dividida entre autor e personagem da cultura, que, teoricamente, convivem em um paradoxo harmonioso. Ora, basta estar vivo para saber que o eu (autor) não pode coexistir numa dialética tão amigável assim com o ego (personagem da cultura). Não acredito na realidade (ontológica) do ego. E realidade, obviamente, no sentido de que ele tenha existência própria, afirmativa e criativa. Penso o ego muito mais como negação, como separação, reação, afastamento e usurpação do eu. Por isso, creio que a teoria faça o caminho justamente contrário ao sugerir que o desenvolvimento cognitivo na adolescência está associado à formação de pensamentos e conceitos. Na medida em que a formação de conceitos é característica de um tipo de pensamento altamente fragmentado, o que há na adolescência, de forma geral, não é um desenvolvimento cognitivo, mas – antes – um processo de fragmentação do eu e engorda do ego. Este sim, alimentado por conceitos. O desenvolvimento cognitivo verdadeiro, por seu lado, é solapado pela escola.

O resultado, como todos nós podemos comprovar, somos nós mesmos: os incríveis adultos! Que tudo sabem, são mestres, professores, ensinadores dos mais variados tipos e que, salvo raríssimas exceções, não conseguem dar conta nem de suas próprias existências. Outro dia conversando com um amigo sobre isso, dizendo a ele mais ou menos essas mesmas coisas, ele me disse:

“ – É mesmo. Eu lembro que quando era criança, sempre ficava me perguntando porque eu tinha que obedecer aos adultos, porque sempre tinha uma porção de adulto me dando uma porção de ordem, me dizendo o que fazer, como fazer e eu olhava pra vida deles, e a vida deles era igual a de todo mundo: uma merda! Cheia de problema, sofrimento, incoerência... nunca entendi”.

Então, independente de teoria A, B ou C, penso que nunca chegaremos a um lugar satisfatório na questão da educação, enquanto não adotarmos como pressuposto a radical igualdade entre os seres humanos. Além disso, penso que, muito dificilmente, sairá alguma solução para a questão da educação dos debates estéreis e vaidosos de que tanto se orgulha a academia. Aliás, não sei nem se creio em solução para a educação. Uma coisa, porém, eu acredito que possa mudar: eu mesmo. O que passar disso, pelo menos no meu entender, é verborragia acadêmica sustentada por autoengano.

Espero que não fique chateada com o meu ponto de vista. Mas, realmente, é o que penso. E me sentiria muito mal em escrever qualquer outra coisa.

Beijo,

Rodrigo.






quinta-feira, 11 de abril de 2013

Hoje eu quero agradecer a Deus pelo tempo



Hoje eu quero agradecer a Deus pelo tempo
Logo ele a quem nunca vi com bons olhos
Preferindo sempre os mistérios da eternidade

Hoje eu quero agradecer a Deus pelo tempo
Porque descobri
Nessa manhã de outono
Enquanto deliciosamente pedalava
Com o corpo embebido
Numa mistura de vento fresco
Com sol na medida certa
Sim, descobri
Que o tempo é dádiva!

Dádiva do Amor
Para que eu
Que não sei amar
Ao ser amado
Possa prosseguir meu caminho
Até o destino final
Início de tudo
O Amor

Hoje eu quero agradecer a Deus pelo tempo
Porque só no tempo eu posso errar
E como é bom errar!

(11/04/2013)




sábado, 30 de março de 2013

Parentes no pó


Quando, de uma ou outra maneira, tememos não conseguir manter uma visão de conjunto sobre os múltiplos e vastos aspectos de uma questão, esforçamo-nos para fazer ou adquirir um breve resumo do todo – para dele obtermos um panorama. Deste modo, a morte é o resumo mais curto da vida, ou a vida reconduzida à sua forma mais breve. Por isso também sempre tem sido tão importante, para os que em verdade refletem sobre a vida humana, muitas e muitas vezes, com a ajuda dessa ideia recapituladora, colocar em questão o que compreendem da vida. Pois nenhum pensador domina a vida como o faz a morte, esse pensador poderoso que não apenas consegue penetrar pelo pensamento toda e qualquer ilusão, mas ainda pode desmembrá-la e pensá-la até não sobrar mais nada. Se então tudo se torna confuso para ti, quando observas os numerosos caminhos da vida, vai então encontrar os mortos “lá para onde convergem todos os caminhos” – e aí sim facilmente terás a visão global. E se te dá vertigem de tanto veres as diferenças da vida e delas ouvires falar, sai de novo a encontrar os mortos, lá tu dominarás as diferenças: entre os “parentes no pó”, toda diferença se apaga e só resta o parentesco próximo. Pois todos os homens são parentes consanguíneos e, portanto, de um único sangue, e este parentesco da vida é tão frequentemente negado na vida; mas que todos são de um mesmo pó, esse parentesco na morte, isso não se deixa negar.

Sim, vai ainda uma vez ao encontro dos mortos, para desse lugar olhar a vida de frente: assim faz aliás o atirador, procura um lugar onde o inimigo não possa atingi-lo, mas de onde ele possa acertá-lo mirando-o com toda a tranquilidade. Não escolhas para essa visita o declínio do dia; pois a calma que se estende à tardinha sobre os mortos freqüentemente não está longe de uma certa tensão que excita e “sacia com inquietação” e que, em vez de resolver os enigmas, propõe novos. Não: vai até lá bem cedo pela manhã, quando o sol matutino assoma entre as folhagens com seus jogos de luz e sombra, quando a beleza amistosa do lugar, ainda animada pelo canto dos pássaros e pela vida multiforme, quase te leva a esquecer que estás entre os mortos. Acharás então que chegaste a um país estrangeiro que permaneceu na ignorância da confusão e da fragmentação da vida, no estado infantil, composto unicamente por pequenas famílias. Aqui fora, com efeito, alcançou-se o que em vão se procurava na vida: a repartição igualitária. Cada família tem para si uma pequena parcela de terra, mais ou menos do mesmo tamanho. A vista é mais ou menos a mesma para todas elas; o sol consegue brilhar igualmente sobre todas elas; nenhum monumento se eleva tão alto que roube do que mora ao lado ou do que mora à frente o raio do sol ou a chuva refrescante ou o frescor da brisa ou o eco do canto dos pássaros. Não, aqui a repartição é igualitária. Pois na vida às vezes acontece a uma família ter de se restringir depois de ter conhecido a abundância e a prosperidade; mas na morte, todos já tiveram que se limitar. Pode haver uma pequena diferença, uma vara, talvez, na extensão do lote; ou uma das famílias talvez possua uma árvore que o outro morador não tenha no seu lote. E por que esta diferença, o que tu achas? Ela está aí para, numa profunda troça, lembrar-te por sua insignificância o quão grande ela um dia já foi. A morte é tão amorosa! Pois é justamente caridade, da parte da morte, que ela por meio dessa pequena diferença em gracejo sublime relembre a grande diferença. A morte não diz: “Não há nenhuma diferença”; ela diz: “Aqui podes ver o que era esta diferença: uma meia vara.” Caso não houvesse essa pequena diferença, então a quintessência da morte não seria inteiramente confiável. Assim a vida retorna, na morte, à infantilidade. Nos tempos da infância, a grande diferença consistia em que um possuía uma árvore, uma flor, uma pedra. E tal diferença era uma indicação daquilo que na vida haveria de se mostrar de acordo com um padrão bem diferente. Agora, a vida já passou, e entre os mortos restou uma pequena indicação da diferença, como uma recordação, suavizada num gracejo, de como era antes.

Vê só, aqui fora é o lugar para meditar sobre a vida; para, com a ajuda desta breve quintessência que abrevia toda a prolixidade das relações complicadas, alcançar a visão do conjunto. Como poderia eu, em um escrito sobre o amor, deixar passar, sem aproveitar, essa oportunidade de examinar afinal em que consiste o amor? Na verdade, se quiseres ter certeza sobre o amor que existe em ti ou em outra pessoa, então presta atenção para a forma com que ela se comporta para com um falecido. Quando se quer observar uma pessoa, é importante para o sucesso da observação que se veja a pessoa que está na relação, porém olhando-se exclusivamente para ela. Quando então uma pessoa real se relaciona com uma outra pessoa real, são então duas, a relação é composta, e a observação sobre apenas uma delas fica dificultada. Pois esta outra pessoa esconde algo sobre a primeira pessoa, e além disso a segunda pessoa pode, afinal, influenciar muito para que a primeira se mostre de maneira diferente da que é. Uma dupla operação é necessária nesse caso; a observação deve levar em conta particularmente a influência exercida pela personalidade, pelas qualidades, pelas virtudes e pelos defeitos dessa pessoa sobre aquela que é o objeto da observação. Se tu pudesses realmente ver um homem lutar na maior seriedade, ou se conseguisses fazer um dançarino executar sozinho a dança que ele habitualmente executa com uma parceira, tu poderia então observar seus movimentos nas melhores condições, bem melhores do que quando o primeiro combate com um outro lutador de verdade, ou se o segundo dançasse com uma outra pessoa de verdade. E se tu compreendes a arte de, num diálogo com alguém, te transformares em “ninguém”, tu então tens todas as chances de te instruíres sobre o que reside nessa pessoa. Oh, mas quando um ser humano se relaciona com um falecido, então nessa relação só há uma pessoa, pois um morto não é nenhuma realidade efetiva; e ninguém, ninguém pode tão bem quanto um morto reduzir-se a ser “ninguém”, pois ele é “ninguém”. Aqui a observação não pode falhar; aqui o que está vivo se torna manifesto; aqui, este tem de se mostrar completamente como ele é; pois um defunto, este sim que é um homem ardiloso, ele se retirou completamente, ele assim não exerce a mínima influência capaz de perturbar ou auxiliar o vivente que se relaciona com ele. Um morto não é um objeto real; ele é tão-somente a ocasião que constantemente revela o que reside no interior do vivente que com ele se relaciona, ou que ajuda a tornar manifesto como é aquele vivente que não mantém com ele nenhuma relação.

Søren Kierkegaard

domingo, 24 de março de 2013

DEle, por Ele e para Ele: o Amor


[...] No discurso usual sobre uma casa ou um prédio, cada um sabe o que se entende por base ou fundações. Mas qual é, no domínio do espírito, a base ou a fundação da vida espiritual que tem de suportar o edifício? É justamente o amor; o amor é a fonte de todas as coisas, e no sentido espiritual o amor é o fundamento mais importante da vida espiritual. Em cada ser humano em que há amor, está implantada, no sentido espiritual, a fundação. E o edifício que, no sentido espiritual, deve ser erguido é outra vez amor, e é o amor que edifica. Amor edifica, e isso significa: ele edifica amor. Nossa tarefa está então definida; o discurso não se dispersa nos detalhes e na multiplicidade, ele não começa de maneira confusa por algo que de modo totalmente arbitrário precisaria interromper em algum lugar para poder enfim terminar; não, ele se concentra e concentra a atenção sobre o essencial, sobre o que é sempre igual em toda a multiplicidade das coisas; o discurso permanece do início ao fim um discurso sobre o amor, justamente porque o edificar é a determinação mais característica do amor. Amor é o fundamento, amor é o edifício, amor edifica. Edificar, é edificar amor, e é o amor que edifica. Sem dúvida, empregamos às vezes o termo edificar em uma acepção mais geral; opondo-nos à decadência que só quer derrubar, ou à confusão que só é capaz de derrubar e destroçar, dizemos que a pessoa competente edifica, aquela pessoa capaz de governar e orientar, que sabe ensinar proveitosamente em sua especialidade, aquela que é mestre em sua arte. Neste sentido, qualquer um edifica, em contraste com o demolir. Porém, toda essa edificação no domínio do conhecimento, da inteligência, da habilidade artística e da integridade profissional, etc. não é, contudo, já que não edifica o amor, edificação no sentido mais profundo da palavra. Pois, espiritualmente, amor é fundação, e edificar é construir a partir da fundação.
            Quando então falamos da obra do amor que consiste em edificar isso deve significar uma de duas coisas: que o que ama implanta o amor no coração de uma outra pessoa, ou então deve significar que o que ama pressupõe que o amor esteja no coração da outra pessoa, e justamente por essa pressuposição edifica nela o amor a partir da fundação, na medida em que, é claro, a pressupõe amorosamente, no fundamento. Edificar deve ser uma ou outra dessas duas coisas. Mas será mesmo que um ser humano pode implantar amor no coração de uma outra pessoa? Não, essa é uma relação sobre-humana; uma relação inconcebível entre dois seres humanos; o amor humano não edifica neste sentido. É Deus, o criador que deve implantar amor em cada ser humano, Ele, que é amor em pessoa. Por isso é justamente desamoroso, e de modo algum edificante, se alguém arrogante imagina que quer e que pode criar amor na outra pessoa; nesse sentido, nenhum zelo apressado e metido a importante edifica o amor, e nem é, ele mesmo, edificante. A primeira forma de edificar mostrou-se então inconcebível, portanto devemos examinar a segunda situação. Assim, obtivemos a explicação do que quer dizer “o amor edifica”, e queremos nos deter nessa explicação: aquele que ama pressupõe que o amor esteja presente no coração da outra pessoa, e justamente com essa pressuposição ele edifica nela o amor a partir do fundamento – na medida em que ele, é claro, amorosamente o pressupõe no fundamento.
            Não é o caso pois de se perguntar o que o amoroso, que quer edificar, deve então fazer para transformar a outra pessoa ou para forçá-la a demonstrar o amor, mas se trata, isso sim, de como o amoroso de maneira edificante força a si mesmo. Observa: já é edificante considerar que o amoroso edifica pelo autodomínio! Apenas o desamoroso imagina que deve edificar pressionando o outro; o amoroso pressupõe constantemente que o amor está presente, justamente assim ele edifica. Um construtor faz pouco da pedra e da areia que usa para a construção; um mestre pressupõe que o discípulo não sabe, um agente correcional pressupõe que o outro homem é corrupto: porém o homem amoroso que edifica só tem um único método, pressupor o amor; o que haveria de resto por fazer só poderia ser constantemente obrigar-se a sempre pressupor o amor. É assim que ele favorece a eclosão do bem, ele faz crescer com amor o amor, ele edifica. Pois o amor só pode e só quer ser tratado de uma única maneira, com um amor que faz avançar; amar o amor fazendo-o adiantar-se é edificar. Mas amá-lo fazendo avançar é justamente pressupor que ele esteja presente no fundamento. Alguém pode ser tentado a ser construtor, a ser o professor, a ser agente de correção, porque isso parece ser dominar sobre outras pessoas; mas o edificar como o faz o amor não poderia tentar, pois é justamente ser aquele que serve; por isso só o amor tem vontade de edificar porque, porque ele está disposto a servir. O construtor pode apontar para o seu trabalho e dizer: “Eis minha obra”; o mestre pode mostrar o seu discípulo; mas o amor que edifica não tem nada a mostrar: seu trabalho consiste simplesmente em pressupor. E é isso que é tão edificante de considerar. Admitamos que o homem amoroso consiga edificar o amor numa outra pessoa; quando então o edifício está erguido, ele se mantém afastado junto a si e diz, humilhado: “Afinal, eu sempre pressupus isso”. Ai, aquele que ama não tem mérito nenhum. O que foi edificado não permanece como um monumento à memória da arte do construtor, ou como o discípulo que lembra o ensinamento do mestre; o amoroso nada faz além de pressupor que o amor estivesse no fundamento. O amoroso trabalha com muita calma e solenidade, e no entanto as forças da eternidade estão em ação; humildemente o amor se faz mais despercebido justamente quando mais trabalha, sim, seu trabalho é como se não fizesse nada. Ai, para a agitação e a mundanidade isso corresponde à maior das tolices: dizer que num certo sentido, o simplesmente não fazer nada deva ser o trabalho mais difícil. E no entanto, tal é o caso. Pois é mais difícil dominar o seu ânimo do que capturar uma cidade, e mais difícil edificar, como o amor faz, do que executar a mais incrível das obras. E se já é difícil em relação a si mesmo dominar o seu ânimo, quanto mais difícil o será, em relação a uma outra pessoa, aniquilar-se inteiramente a si mesmo, e não obstante fazer tudo e sofrer tudo! E se de resto deve ser difícil começar sem pressuposições, verdadeiramente a mais difícil das tarefas é começar a edificar pressupondo que o amor esteja presente e terminar com esta mesma pressuposição; todo o trabalho que alguém faz é assim previamente reduzido a nada, na medida em que a pressuposição, do início ao fim, é a auto-abnegação, ou a que o construtor permanece oculto e como que inexistente. Por isso, só podemos comparar esse edificar do amor com o trabalho oculto da natureza. Enquanto o homem dorme, as forças da natureza não dormem nem de noite nem de dia; ninguém se pergunta como é que elas aguentam – enquanto todos se deleitam com o encantamento do prado e com a fecundidade dos campos. Assim se comporta o amor: ele pressupõe que o amor esteja presente como o germe no grão; e se ele consegue lhe fazer crescer, ele então se oculta como estava oculto quando trabalhava da manhã à noite. Mas tal é justamente o edificante na natureza: tu vês todo este esplendor, e então isso te arrebata, edificando quando te pões a pensar no quanto é estranho que tu não vejas aquele que produz tudo isso. Se pudesses ver Deus com teus olhos corporais, se ele, se me atrevo a dizer, parasse ao teu lado e dissesse: “Fui eu quem fez tudo isso”, o edificante teria desaparecido.
            O amor edifica, ao pressupor que o próprio amor esteja presente. Desse modo, um que ama edifica o outro, e aqui é então bem fácil pressupô-lo, onde ele está notoriamente presente. Ai, mas o amor jamais está completamente presente em homem algum; nesta medida é possível afinal fazer outra coisa além de pressupô-lo: descobrir nele um defeito qualquer ou alguma fraqueza. E quando então alguém, desamorosamente, descobriu isso, quer talvez, como se diz, retirar, retirar esse argueiro, para edificar corretamente o amor. Mas o amor edifica. A quem ama muito, muito lhe é perdoado, mas quanto mais perfeitamente aquele que ama pressupõe que o amor esteja presente, tanto mais perfeito será o amor que ele há de cultivar amorosamente no outro. Não há no mundo inteiro uma só relação em que o igual pelo igual valha tanto; em que o resultado corresponda tão exatamente ao que foi pressuposto. Não levantemos objeções; não evoquemos a experiência, pois seria justamente desamoroso fixar arbitrariamente uma data em que se deva manifestar o que se produziu. O amor não entende desse tipo de previsões; ele está eternamente certo do cumprimento da pressuposição; quando não é este o caso, então o amor está em vias de enfraquecimento.
            O amor edifica pressupondo que o amor está presente no fundamento, e por isso o amor edifica também lá onde humanamente falando parece faltar amor, e onde em termos humanos parece necessário primeiramente demolir, certamente não pelo prazer, porém para a salvação. O contrário de edificar é demolir. Esta oposição jamais se mostra mais nitidamente do que quando o tema do discurso afirma que o amor edifica; pois em qualquer outro contexto em que se trata de edificar, este termo tem semelhança com o de demolir, em que sempre se trata de fazer com ou em outro. Mas quando aquele que ama edifica, faz exatamente o contrário de demolir, pois o amoroso faz alguma coisa em si mesmo: ele pressupõe que o amor esteja presente na outra pessoa – o que é por certo o contrário de fazer alguma coisa com o e no outro. Demolir é algo que satisfaz bem facilmente o homem preso aos sentidos; ele pode decerto ter prazer em edificar, no sentido de fazer alguma coisa com um outro e no outro; mas edificar dominando-se a si mesmo, isso só traz satisfação ao amor. E contudo este é o único modo de edificar. Mas no zelo bem intencionado de demolir e de edificar, esquecemo-nos de que em última análise nenhum ser humano tem condições de estabelecer a fundação do amor numa outra pessoa.
Vê, aqui se mostra justamente quão difícil é a arte da edificação que o amor exerce e que se encontra descrita naquela célebre passagem do apóstolo Paulo (1Cor 13), pois o que ali é dito sobre o amor constitui-se justamente em determinações mais precisas sobre como o amor se comporta ao edificar. “O amor é paciente”, e graças a isso ele edifica; pois a paciência é aliás justamente a perseverança em pressupor que o amor esteja realmente presente no fundamento. Aquele que julga, mesmo que isso se dê lentamente, aquele que julga que falta amor à outra pessoa, retira as fundações – ele não pode edificar; mas o amor edifica pela paciência. Por isso “ele não traz inveja” e também não guarda “rancor”; pois inveja e rancor negam o amor na outra pessoa e com isso corroem, quanto fosse possível, a fundação. O amor que edifica suporta, pelo contrário, a incompreensão, a ingratidão, a cólera da outra pessoa – tantas coisas com um peso já bem suficiente: como então o amor carregaria ainda a inveja e o rancor! Tal é a divisão do mundo: o que tem inveja e rancor não carrega por sua vez os fardos da outra pessoa, mas aquele que ama e não tem inveja nem rancor carrega os fardos de outrem. Cada um carrega o seu fardo, o invejoso e o amoroso; ambos são num certo sentido mártires, pois como disse um homem piedoso: também o invejoso é um mártir – mas do diabo. “O amor não busca seu próprio interesse”, por isso ele edifica. Pois aquele que procura seu interesse deve afastar todo o resto, deve demolir para dar lugar ao seu interesse, que ele quer edificar. Mas o amor pressupõe que o amor esteja presente no fundamento, por isso ele edifica. “Ele não se alegra com a injustiça”; mas aquele que quer demolir ou pelo menos tornar-se importante a seus próprios olhos achando que é necessário demolir, deste homem podemos dizer que ele se alegra com a injustiça – senão, não haveria nada a demolir. O amor, ao contrário, se regozija em pressupor que o amor esteja presente no fundo, por isso ele edifica. “O amor tolera tudo”; pois o que é tolerar tudo? É, em última análise, encontrar em todas as coisas o amor que se pressupõe no fundamento. Quando dizemos de um homem de saúde forte que ele tolera todo tipo de comida e bebida, entendemos com isso que sua saúde se nutre até de coisas malsãs (assim como ao doente até um alimento saudável faz mal), nós entendemos que com isso que sua saúde se alimenta até do que parece menos nutritivo. É assim que o amor tolera tudo, pressupondo sem cessar que o amor esteja mesmo presente no fundamento – e desta maneira ele edifica. “O amor tudo crê”, pois tudo crer é justamente – ainda que não o vejamos; sim, apesar de vermos o contrário – pressupor que o amor esteja contudo presente no fundo, mesmo no perdido, no corrompido, no mais raivoso dos homens. A desconfiança arranca fora as fundações, ao pressupor que o amor não está presente; por isso a desconfiança não consegue edificar. “O amor espera tudo”, mas esperar tudo é justamente pressupor que o amor esteja presente no fundamento e que ele ainda se manifestará naquele que tomou o mau caminho, no desorientado, até mesmo no perdido – embora não o vejamos ou vejamos o contrário. Vê só, o pai do filho pródigo era talvez o único a ignorar que tinha um filho perdido, pois o amor do pai esperava tudo. O irmão mais velho logo soube que seu irmão estava perdido sem nenhuma esperança. Mas o amor edifica; e o pai tornou a ganhar seu filho perdido, justamente porque, esperando tudo, pressupunha que o amor estivesse presente no fundo. Apesar do extravio do filho, não ocorreu nenhum rompimento da parte do pai (e uma ruptura é bem o contrário de edificar); este último esperava tudo, por isso ele edificou na verdade com seu perdão paterno, justamente porque o filho percebeu bem vivamente que o amor paterno havia permanecido com ele, de modo que não houvera nenhuma ruptura. “O amor suporta tudo”, pois suportar tudo é justamente pressupor que o amor esteja presente no fundo. Quando dizemos que a mãe suporta todas as malcriações de sua criança, dizemos com isso então que ela, considerada como mulher, sofre com paciência a maldade? Não, dizemos algo diferente, que ela, enquanto mãe, fica constantemente lembrando que é sua criança, e portanto pressupondo que a criança ainda a ame, e que isso se mostrará um dia. Se não fosse assim, falaríamos decerto de como a paciência tudo suporta e não de como o amor suporta tudo. Pois a paciência suporta tudo e cala, e se a mãe suportasse assim as impertinências de sua criança, com isso diríamos propriamente que, contudo, a mãe e a criança se teriam tornados estranhas uma à outra. Pelo contrário, o amor suporta tudo e cala pacientemente – mas pressupõe durante o silêncio que o amor mesmo assim continue presente na outra pessoa.
            É assim que o amor edifica. “Ele não se infla, ele não usa de precipitação, ele não se irrita”: ele não se infla na opinião de que ele teria a função de criar o amor na outra pessoa, não é irritado e precipitado, impaciente, quase sem esperança na pressa com que primeiro deve demolir para então edificar de novo; não, ele pressupõe constantemente que o amor esteja presente no fundamento. Por isso é absolutamente o espetáculo mais edificante ver o amor edificar, uma visão com a qual os próprios anjos são edificados; e por isso seria absolutamente o que há de mais edificante se um homem conseguisse comentar corretamente de que modo o amor edifica. Há muitas visões que nos agradam, muitas que nos reconfortam, muitas que nos encantam, muitas que nos emocionam, muitas que elevam nossa alma, muitas que nos cativam, muitas que nos persuadem e assim por diante; mas há apenas uma visão edificante: ver o amor edificar. Por isso, o que quer que tenhas visto de horrível ou repugnante no mundo, que desejarias poder esquecer porque quer abater tua coragem, tua confiança, dar-te desgosto da vida e repugnância de viver: medita simplesmente como o amor edifica, e estarás edificado para viver! Há uma enorme quantidade de diversos objetos que se prestam a discursos, mas apenas um é edificante: de que maneira o amor edifica. Assim, qualquer que tenha sido teu destino, tão amargo que poderias desejar jamais ter nascido e quanto antes melhor emudecer na morte: medita apenas na maneira como o amor edifica, e então estarás edificado novamente para poder falar! Há apenas um único espetáculo edificante e apenas um único assunto edificante; tudo, no entanto, pode ser dito e ser feito de modo edificante, pois onde quer que esteja o edificante, está amor, e onde quer que haja amor, há o edificante, e tão logo o amor esteja presente, ele edifica.
            O amor edifica pressupondo que o amor esteja presente. Nunca fizeste tu mesmo esta experiência, m. ouvinte? Se alguma vez alguém falou contigo de tal modo ou agiu com relação a ti de tal modo que te sentiste verdadeiramente edificado, isso foi porque tu percebeste de maneira viva como ele pressupunha que o amor estivesse em ti. Ou como imaginas que deveria ser a pessoa realmente capaz de te edificar? Não é verdade que lhe desejarias inteligência e instrução e talento e experiência? Mas tu não acreditarias, porém, que isso importa decisivamente, antes tu gostarias que fosse uma única pessoa confiavelmente amorosa, isto é, uma pessoa verdadeiramente amorosa. Tu achas, portanto, que para edificar, o decisivo e essencial depende de ser amoroso ou ter amor a um ponto tal que possamos confiar nisso. Mas agora, o que é amor? Amor é pressupor amor; ter amor é pressupor amor nos outros; ser amoroso é pressupor que os outros sejam amorosos. Entendamo-nos bem. As qualidades que um homem pode ter são, ou bem qualidades que ele possui para si – embora as empregue em relação aos outros –, ou bem são qualidades para outros. Sabedoria é uma qualidade que existe por si, poder e talento e conhecimentos, etc. também existem por si.Ser sábio não quer dizer pressupor que outros sejam sábios; pelo contrário, pode ser muito sábio e muito verdadeiro se o verdadeiramente sábio admite que muito pouca gente é sábia. Sim, já que “sábio” é uma qualidade dada por ela própria, nada impede, em princípio, admitir que viva ou tenha vivido um sábio que se atrevesse a dizer que admitia serem todos os demais desprovidos de sabedoria. Na ideia de ser sábio, e admitir que todos os outros não o sejam, não há nenhuma contradição. Na vida real, uma tal expressão seria arrogância, mas no mero pensamento enquanto tal, aí não há nenhuma contradição. Em contrapartida, se alguém resolvesse achar que era amoroso, mas também que todos os demais não são amorosos, nós lhe diríamos: Alto lá! Aqui há uma contradição no próprio pensamento; pois ser amoroso é afinal de contas justamente admitir, pressupor que outros seres humanos também sejam amorosos. O amor não é uma qualidade dada por ela mesma, mas uma qualidade pela qual (ou na qual) tu és para outros. Na conversação diária, decerto, ao enumerar as qualidades de alguém, dizemos que ele é sábio, razoável, amoroso – e não notamos a diferença que separa esta última qualidade das precedentes. Sua sabedoria, sua experiência, seu bom senso ele tem para si, mesmo se daí tira proveito para outros; mas se ele é, verdadeiramente amoroso, não é ele que tem amor, no mesmo sentido como ele tem sabedoria: mas seu amor consiste justamente em pressupor que nós outros também tenhamos amor. Tu o elogias como o que tem amor, tu achas que se trata de uma qualidade que ele tem, o que é verdade também; tu te sentes edificado por ele, justamente porque ele é amoroso; mas tu não vês que a explicação é que seu amor significa que ele pressupõe amor em ti, e que justamente com isso te edificas, e justamente com isso o amor se edifica em ti. Se fosse realmente o caso que um homem pudesse realmente ser amoroso sem que isso significasse pressupor o amor nos outros, tu não poderias de jeito nenhum te sentir edificado no sentido mais profundo, por mais confiável que fosse o fato de ele ser amoroso, tu não poderias de jeito nenhum te sentir edificado no sentido mais profundo, tampouco como tu te edificas no sentido mais profundo por mais confiável que seja o fato de sua sabedoria, seu bom senso, sua experiência, sua erudição. Se fosse possível que ele pudesse ser verdadeiramente amoroso sem que isso significasse pressupor amor nos outros, tu também não poderias de jeito nenhum confiar inteiramente nele; pois a confiabilidade na questão do amor consiste exatamente em que, até quando duvidas sobre ti mesmo, se há amor em ti, ele é bastante amoroso para o pressupor, ou melhor, ele é o amoroso que o pressupõe. Mas tu exigias que, para edificar verdadeiramente, um homem deveria ser verdadeiramente amoroso. E ser amoroso mostrou-se agora significar: pressupor amor nos outros. Tu dizes assim exatamente o mesmo que o nosso discurso desenvolveu.
            Assim retorna nossa consideração ao seu ponto de partida. Edificar é pressupor amor; ser amoroso é pressupor amor; só o amor edifica. Pois edificar é erguer algo desde um fundamento, mas, espiritualmente, o amor é o fundamento de todas as coisas. Implantar no coração de um outro o fundamento do amor, disso nenhum ser humano é capaz; todavia, o amor é o fundamento, e só podemos edificar a partir de um fundamento, portanto só podemos edificar ao pressupor amor. Se retirares o amor, ninguém edificará e ninguém será edificado.


Søren Kierkegaard

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Eterno retorno



Descobri que o fogo é fluido
E quando o vento sopra forte
Labaredas informes
Se dispersam pelo ar

Apesar de tanta intensidade
Não consegue realizar...
Não a sua missão
Que demanda direção

Mas se fogo com ar
Não se pode controlar
Passei a investigar então
O caminho da concentração

Se sobre a chama lanço água
O fogo se apaga
E isso eu sei tão bem
A vida me ensinou também

O que não sabia todavia
E com alegria passo a vislumbrar
É que o fogo em sua jornada
Encontra na terra sua mais fiel aliada

Dela ele veio
E pra ela quer voltar
Permanecendo sem anseio
No descanso do seu seio

(16/02/2013)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Que coisa estranha!

O poeta[1] e o Cristianismo[2] explicam exatamente o contrário, ou, dito com mais precisão, o poeta a rigor não explica nada, pois ele explica o amor e a amizade – em enigmas, ele explica o amor e a amizade como enigmas, mas o Cristianismo dá a explicação eterna do amor. Daí se vê novamente que constitui uma impossibilidade viver ao mesmo tempo de acordo com ambas as explicações, pois a maior oposição possível entre duas explicações consiste decerto em que uma delas não é nenhuma explicação e a outra é a explicação. Amor e amizade, como o poeta os compreende, não contêm, por isso, absolutamente nenhuma tarefa ética. Amor e amizade são uma questão de sorte; é uma felicidade, no sentido poético (e por certo o poeta entende muito da felicidade), a mais alta felicidade está em enamorar-se, encontrar o seu único amado; é uma sorte, quase uma sorte tão grande quanto a outra, encontrar o seu único amigo. A tarefa aqui pode no máximo consistir em ser realmente grato por sua felicidade. Por outro lado, jamais poderá constituir-se numa tarefa o dever encontrar a pessoa amada ou encontrar aquele amigo; isso não pode ser feito, o que aliás o poeta compreende perfeitamente. A tarefa depende então de se a felicidade quer dar a alguém a tarefa; mas isso, afinal de contas, é justamente a expressão para dizer que, no sentido ético, não há uma tarefa. Quando, pelo contrário, se deve amar o próximo, a tarefa existe (a tarefa ética), a qual, por sua vez, é a fonte original de todas as tarefas. Justamente porque o crístico é o verdadeiro ético ele sabe abreviar os raciocínios e cortar fora as introduções panorâmicas, afastar todas as delongas preliminares e libertar de toda perda de tempo; o cristão está imediatamente na tarefa, porque ele a tem consigo. No mundo há uma grande discussão, aliás, sobre o que deveria ser chamado o bem supremo. Mas qualquer que seja o que chamamos assim, por mais diferente que seja, é incrível quanta complexidade se prende ao esforço de alcançá-lo. O Cristianismo, ao contrário, ensina ao homem imediatamente o caminho mais curto para encontrar o que há de mais elevado: fecha tua porta e ora a Deus – pois Deus é que é o bem supremo. E se um homem tiver que sair pelo mundo, sim, aí talvez ele possa ir longe e andar em vão, dar uma volta ao mundo – e em vão, para procurar a pessoa amada ou o amigo. Mas o Cristianismo jamais incorre na falta de mandar uma pessoa andar, nem que seja um único passo, inutilmente; pois quando abrires aquela porta, que tu fechaste para orar a Deus, e saíres, então a primeira pessoa que encontrares é o próximo, que tu deves amar. Que coisa estranha! [...]

[...] De muitas maneiras se confundiu o cristianismo, mas entre elas também está uma em que, ao chamá-lo “o que há de mais elevado”, “de mais profundo”, dava-se a impressão de que o puramente humano se relacionaria com o essencialmente cristão do mesmo modo como o elevado se relaciona com o mais elevado e com o mais elevado de todos. Ai, mas essa é uma linguagem enganadora, que de maneira não verdadeira e imprópria faz o Cristianismo empreendedoramente querer insinuar-se na curiosidade humana e no gosto de suas novidades. Existirá por acaso alguma coisa que o homem como tal, que o homem natural mais cobice do que as coisas mais altas!  Tão logo um vendedor de novidades trombeteia que sua mais nova novidade é o máximo, ganha ávidos adeptos no mundo, que desde os tempos de antanho sempre experimentou uma indescritível preferência por (e sentiu uma profunda necessidade de) ser enganado. Não, as coisas do Cristianismo são certamente superiores e supremas, mas, é bom notar, de tal maneira que ao homem natural elas escandalizam. Aquele que ao definir o essencial do Cristianismo como o bem supremo deixa de lado a determinação intermediária do escândalo, peca contra ele, comete uma temeridade, mais abominável do que se uma honrada mãe de família se vestisse como uma dançarina, ainda mais terrível do que se João, o austero juiz, se trajasse como um janota. O essencialmente cristão é em si mesmo pesado demais, em seus movimentos sério demais para, dançando, mexer-se numa tal leviandade nessa conversação ligeira sobre o alto, o mais alto e o altíssimo. O caminho para o que é essencial no Cristianismo passa por dentro do escândalo. Com isso não se diz que o acesso ao essencialmente cristão teria que ser escandalizar-se dele, pois isso seria de uma outra maneira impedir-se a si mesmo de alcançar o cristão: mas o escândalo vigia no acesso ao essencial do Cristianismo. Feliz daquele que não se escandalizar por causa disso.

E o mesmo acontece com o mandamento de amar ao próximo. Confessa tu também - ou caso te deixe confundido o fato de se falar assim, pois bem, então eu mesmo confessarei que muitas vezes isso me repeliu, e que estou ainda muito longe da ilusão de que cumpro este mandamento, que justamente é um escândalo para carne e sangue, e uma tolice para a sabedoria. Se tu, meu ouvinte, és talvez, como se diz, um sujeito culto, muito bem, eu também sou culto; mas caso tu creias que com a ajuda da "cultura" chega mais perto daquele máximo, aí tu cometes um enorme erro. E aqui se esconde justamente o equívoco, pois cultura todos nós desejamos, e cultura sempre tem na boca a excelência, sim, nenhum pássaro que tenha aprendido uma única palavra fica gritando esta palavra tão incessantemente quanto a cultura grita pelo "bem superior". Mas o Cristianismo não é, de jeito nenhum, o "bem superior" da cultura, e o essencialmente cristão educa justamente através do choque de escândalo. Isso entenderás aqui imediata e facilmente; pois será que a tua cultura te ensinou, ou tu crês que o zelo de algum homem por conquistar a cultura já lhe ensinou a amar o próximo? Ai, ai, será que antes a cultura e o zelo com que ela é perseguida não desenvolvem uma nova espécie da diferença, a diferença entre o cultivado e o inculto? Apenas presta a atenção ao que é dito entre os cultos a respeito do amor natural e da amizade, quanta igualdade em termos de cultura o amigo precisa ter, quão culta e precisamente cultivada num certo modo a moça tem de ser; lê os poetas, que quase nunca conseguem manter a franqueza à poderosa dominação da cultura, dificilmente conseguem acreditar no poder do amor humano para romper as cadeias das diferenças - tu achas que esses discursos, esses poemas, ou que uma vida que se afina com esses discursos e esses poemas aproxima um homem de amar o seu próximo? Vê só, aqui foram excluídas de novo as marcas do escândalo. Pois imagina a pessoa mais culta de todas, aquela a quem todos nós admirando dizemos "ela é tão culta", e pensa então no Cristianismo, que diz a ela "tu deves amar o próximo"! Sim, uma certa urbanidade no trato, uma cortesia frente a todos os homens, uma amistosa condescendência para com os mais humildes, uma conduta franca diante dos poderosos, uma liberdade de espírito belamente dominada: sim, isso é cultura - tu crês que também é amar ao próximo?

O próximo é o igual. O próximo não é a pessoa amada, pela qual tu tens a predileção da paixão. O próximo não é, de jeito nenhum, se tu és alguém culto, a pessoa culta, com quem tu compartilhas a cultura - pois com o próximo tu compartilhas a igualdade dos homens diante de Deus. O próximo não é, de jeito nenhum, alguém que é mais distinto do que tu, isto é, ele não é o próximo na medida em que é mais distinto do que tu, pois amá-lo por ser ele mais distinto pode bem facilmente ser uma preferência, e nesse sentido amor de si mesmo. De maneira alguma o próximo é alguém que é mais humilde do que tu, isto é, na medida em que ele é mais humilde do que tu ele não é o próximo, pois amar alguém porque ele é mais pobre do que tu bem pode ser a condescendência da preferência, e nesse sentido amor de si mesmo.. Não, amar o próximo é igualdade. É estimulante em tua relação para com uma pessoa distinta, que nela tu devas amar o teu próximo; é bom para a tua humildade na relação com o mais humilde, que tu nele não tenhas de amar o mais humilde, mas sim devas amar ao próximo; é libertador, se tu o fazes, pois tu deves fazê-lo.  O próximo é todo e qualquer homem; pois pelas diferenças ele não é o teu próximo, nem mesmo pela igualdade contigo no interior da diferença em relação aos outros homens. Pela igualdade contigo diante de Deus ele é o teu próximo, mas esta igualdade absolutamente todo homem tem, e a tem incondicionalmente.



          Søren Kierkegaard



[1] Poeta aqui refere-se ao homem do estádio estético, preso ao sensual, que – para Kierkegaard – é identificado ao egoístico: aquele que ama por amor de si, transformando o outro em um segundo eu.
[2] Para Kierkegaard, Cristianismo nada tem a ver com um determinado corpus doutrinário de qualquer confissão religiosa instituída. Refere-se aos ensinamentos de Cristo encontrados no Novo Testamento e interpretados mediante sua experiência existencial concreta, podendo ter pontos de contato ou não com as tradições cristãs.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sagacidade temerária


Enganar-se a si mesmo quanto ao amor, é o mais horrível, é uma perda eterna, para a qual não há reparação nem no tempo nem na eternidade. Pois nos outros casos, por mais diversos que sejam em que se fala do ser enganado no amor, o enganado se relaciona mesmo assim com o amor, e o engano consiste apenas em que o amor não estava onde se acreditava estar; aquele, porém, que se engana a si mesmo excluiu-se a si mesmo e excluiu-se do amor. Também se fala de alguém ser enganado pela vida ou na vida; mas para aquele que numa autoilusão enganou a si mesmo quanto à vida, a perda é irreparável. Entretanto, mesmo aquele que ao longo de toda sua vida foi enganado pela vida, pode receber da eternidade uma copiosa reparação; mas o que se enganou a si mesmo impediu a si mesmo de conquistar o eterno. Aquele que exatamente por seu amor tornou-se uma vítima do engano humano, - oh, o que é mesmo que terá perdido, quando se mostrar na eternidade que o amor permanece, depois que cessou o engano! Aquele, porém, que - engenhosamente - enganou a si mesmo, caminhando sagazmente para a armadilha da sagacidade, ai, mesmo que durante toda a sua vida se considerasse feliz em sua ilusão, o que não terá ele perdido, quando na eternidade se mostrar que ele se enganou a si mesmo! Pois na temporalidade talvez um homem consiga prescindir do amor, talvez tenha êxito em evadir-se ao longo do tempo sem descobrir o auto-engano, talvez tenha sucesso no mais terrível, - numa ilusão, orgulhoso de - permanecer nela; mas na eternidade ele não pode prescindir do amor, e não pode deixar de descobrir que pôs tudo a perder. Portanto, onde a vida é tão séria, onde é tão terrível, senão justamente quando ela, punindo, permite ao voluntarioso fazer o que quiser, de modo que lhe permite ir vivendo, orgulhoso de ser enganado, até que um dia lhe permite reconhecer a verdade, de que se enganou a si mesmo eternamente! Verdadeiramente, a eternidade não deixa que escarneçam dela, antes é assim, que ela nem precisa usar do poder, mas poderosamente usa de um pouco de escárnio para punir de maneira terrível o temerário. Pois o que vincula o temporal e a eternidade, o que é, senão o amor, que justamente por isso existe antes de tudo, e permanece depois que tudo acabou. Mas justamente porque o amor é assim o vínculo da eternidade, e justamente porque a temporalidade e a eternidade são de natureza diferente, justamente por isso o amor pode parecer um fardo para a sagacidade terrena da temporalidade, e por isso na temporalidade pode parecer ao homem sensual um imenso alívio lançar para longe de si este vínculo da eternidade. O que se enganou a si mesmo crê, certamente, poder consolar-se, sim, até ter mais do que vencido; para ele se oculta, na presunção da tolice, o quão sem consolo é sua vida. Que ele "parou de se entristecer" não queremos negar-lhe; mas o que é que isso lhe adianta, se a salvação justamente consistiria em começar a entristecer-se seriamente sobre si mesmo!
O que se enganou a si mesmo crê talvez até poder consolar outros que foram vítimas do engano da infidelidade; mas que loucura, se aquele que já sofreu dano no eterno quer curar aquele que no máximo está doente para a morte! O que se enganou a si mesmo crê talvez até, por força de uma estranha autocontradição, ser solidário com o infeliz que foi enganado. Mas se prestares atenção ao seu discurso consolador e à sua sabedoria curativa, vais reconhecer o amor nos frutos: no amargor do escárnio, na agudeza dos argumentos, no espírito envenenado da desconfiança, no frio mordente do endurecimento, ou seja, nos frutos se reconhece que aí não existe nenhum amor.

Søren Kierkegaard

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Vísceras em festa



Ou pé na jaca
Ou terno e gravata
Seja como for
A vida tem me tratado assim

Exige de mim
Não pedaço
Nem bagaço
Mas me quer inteiro

Existência gulosa
De desejo profundo
Recipiente sem fundo
Que precisa absorver

Como criança levada
Não anseia muita coisa
Basta o chão da vida
Pra se lambuzar

Ah, Senhor!
Eu devia ter desconfiado
Que essa tal de plenitude
Não pode ser negociada

Mas circunscrito na razão
Como tolo me portei
Sem contudo perceber
A risível redução

Imerso em gratidão
E com as vísceras em festa
Celebro a integridade
Onde habita o TEu Sagrado

(15/01/2013)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Apocalipse 3



Morno equilíbrio
Chamasse instabilidade
Nada mudaria
Quase nada!

Armadilha perigosa
De resposta sem pergunta
Entre tantas outras
Só mais uma

Não vislumbra que a Vida
Simplesmente sendo
Divisão desconhece

Pesa daqui...
Pesa dali...
E o coração cindido
Apesar da pá de cal
Conservado fica

Não em graça abundante
Mas no joguete rasteiro
Das escolhas angustiantes

É preciso...
Não!
Não é preciso nada
Já basta
O inteiro é!

(14/01/2013)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Desisto!


[...]Tudo o que me caracteriza é apenas o modo como sou mais facilmente visível aos outros e como termino sendo superficialmente reconhecível por mim. Assim como houve o momento em que vi que a barata é a barata de todas as baratas, assim quero de mim mesma encontrar em mim a mulher de todas as mulheres.
A despersonalização como a grande objetivação de si mesmo. A maior exteriorização a que se chega. Quem se atinge pela despersonalização reconhecerá o outro sob qualquer disfarce: o primeiro passo em relação ao outro é achar em si mesmo o homem de todos os homens. Toda mulher é a mulher de todas as mulheres, todo homem é o homem de todos os homens, e cada um deles poderia se apresentar onde quer que se julgue o homem. Mas apenas em imanência, porque só alguns atingem o ponto de, em nós, se reconhecerem. E então, pela simples presença da existência deles, revelarem a nossa.
Aquilo de que se vive – e por não ter nome só a mudez pronuncia – é disso que me aproximo através da grande largueza de deixar de me ser. Não porque eu então encontre o nome do nome e torne concreto o impalpável – mas porque designo o impalpável como impalpável, e então o sopro recrudesce como na chama de uma vela.
A gradual desenraização de si mesmo é o verdadeiro trabalho que se labora sob o aparente trabalho, a vida é uma missão secreta. Tão secreta é a verdadeira vida que nem a mim, que morro dela, me pode ser confiada a senha, morro sem saber de quê. E o segredo é tal que, somente se a missão chegar a se cumprir é que, por um relance, percebo que nasci incumbida – toda vida é uma missão secreta.
A deseroização de mim mesma está minando subterraneamente o meu edifício, cumprindo-se à minha revelia como uma vocação ignorada. Até que me seja enfim revelado que a vida em mim não tem o meu nome.
E eu também não tenho nome, e este é o meu nome. E porque me despersonalizo a ponto de não ter o meu nome, respondo cada vez que alguém disser: eu.
A deseroização é o grande fracasso de uma vida. Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair – só posso alcançar a despersonalidade da mudez se eu antes tiver construído toda uma voz. Minhas civilizações eram necessárias para que eu subisse a ponto de ter de onde descer. É exatamente através do malogro da voz que se vai pela primeira vez ouvir a própria mudez e a dos outros e a das coisas, e aceitá-la como a possível linguagem. Só então minha natureza é aceita, aceita com o seu suplício espantado, onde a dor não é alguma coisa que nos acontece, mas o que somos. E é aceita a nossa condição como a única possível, já que ela é o que existe, e não outra. E já que vivê-la é a nossa paixão. A condição humana é a paixão de Cristo.
Ah, mas para se chegar à mudez, que grande esforço da voz. Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes de minha linguagem, existe como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa. A realidade antecede a voz que a procura, mas como a terra antecede a árvore, mas como o mundo antecede o homem, mas como o mar antecede a visão do mar, a vida antecede o amor, a matéria do corpo antecede o corpo, e por sua vez a linguagem um dia terá antecedido a posse do silêncio.
Eu tenho à medida que designo - e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.
E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.
A desistência é uma revelação.
Desisto, e terei sido a pessoa humana – é só no pior de minha condição que esta é assumida como o meu destino. Existir exige de mim o grande sacrifício de não ter força, desisto, e eis que na mão fraca o mundo cabe. Desisto, e para a minha pobreza humana abre-se a única alegria que me é dado ter, a alegria humana. Sei disso, e estremeço - viver me deixa tão impressionada, viver me tira o sono.
Chego à altura de poder cair, escolho, estremeço e desisto, e, finalmente me votando à minha queda, despessoal, sem voz própria, finalmente sem mim – eis que tudo o que não tenho é que é meu. Desisto e quanto menos sou mais vivo, quanto mais perco o meu nome mais me chamam, minha única missão secreta é a minha condição, desisto e quanto mais ignoro a senha mais cumpro o segredo, quanto menos sei mais a doçura do abismo é o meu destino. E então eu adoro.
Com as mãos quietamente cruzadas no regaço, eu estava tendo um sentimento de tenra alegria tímida. Era um quase nada, assim como quando a brisa faz estremecer um fio de capim. Era quase nada, mas eu conseguia perceber o ínfimo movimento de minha timidez. Não sei, mas eu me aproximava com angustiada idolatria de alguma coisa, e com a delicadeza de quem tem medo. Eu estava me aproximando da coisa mais forte que já me aconteceu.
Mais forte que esperança, mais forte que amor? Eu me aproximava do que acho que era - confiança. Talvez seja este o nome. Ou não importa: também poderia dar outro.
Senti que meu rosto em pudor sorria. Ou talvez não sorrisse, não sei. Eu confiava.
Em mim? no mundo? no Deus? na barata? Não sei. Talvez confiar não seja em quê ou em quem. Talvez eu agora soubesse que eu mesma jamais estaria à altura da vida, mas que minha vida estava à altura da vida. Eu não alcançaria jamais a minha raiz, mas minha raiz existia. Timidamente eu me deixava transpassar por uma doçura que me encabulava sem me constranger.
Oh Deus, eu me sentia batizada pelo mundo. Eu botara na boca a matéria de uma barata, e enfim realizara o ato ínfimo.
Não o ato máximo, como antes eu pensara, não o heroísmo e a santidade. Mas enfim o ato ínfimo que sempre me havia faltado. Eu sempre fora incapaz do ato ínfimo. E com o ato ínfimo, eu me havia deseroizado. Eu, que havia vivido do meio do caminho, dera enfim o primeiro passo de seu começo.
Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, eu era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois “eu” é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo. Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior – é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos. Mas agora, eu era muito menos que humana - e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano.
E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só posso me agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real.
E tal entrega é o único ultrapassamento que não me exclui. Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mas perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios: a atualidade simultânea não me assustava mais, e na mais última extremidade de mim eu podia enfim sorrir sem nem ao menos sorrir. Enfim eu me estendia para além de minha sensibilidade.
O mundo independia de mim – esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.


Clarice Lispector