A boca fala do que o coração tá cheio

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Que coisa estranha!

O poeta[1] e o Cristianismo[2] explicam exatamente o contrário, ou, dito com mais precisão, o poeta a rigor não explica nada, pois ele explica o amor e a amizade – em enigmas, ele explica o amor e a amizade como enigmas, mas o Cristianismo dá a explicação eterna do amor. Daí se vê novamente que constitui uma impossibilidade viver ao mesmo tempo de acordo com ambas as explicações, pois a maior oposição possível entre duas explicações consiste decerto em que uma delas não é nenhuma explicação e a outra é a explicação. Amor e amizade, como o poeta os compreende, não contêm, por isso, absolutamente nenhuma tarefa ética. Amor e amizade são uma questão de sorte; é uma felicidade, no sentido poético (e por certo o poeta entende muito da felicidade), a mais alta felicidade está em enamorar-se, encontrar o seu único amado; é uma sorte, quase uma sorte tão grande quanto a outra, encontrar o seu único amigo. A tarefa aqui pode no máximo consistir em ser realmente grato por sua felicidade. Por outro lado, jamais poderá constituir-se numa tarefa o dever encontrar a pessoa amada ou encontrar aquele amigo; isso não pode ser feito, o que aliás o poeta compreende perfeitamente. A tarefa depende então de se a felicidade quer dar a alguém a tarefa; mas isso, afinal de contas, é justamente a expressão para dizer que, no sentido ético, não há uma tarefa. Quando, pelo contrário, se deve amar o próximo, a tarefa existe (a tarefa ética), a qual, por sua vez, é a fonte original de todas as tarefas. Justamente porque o crístico é o verdadeiro ético ele sabe abreviar os raciocínios e cortar fora as introduções panorâmicas, afastar todas as delongas preliminares e libertar de toda perda de tempo; o cristão está imediatamente na tarefa, porque ele a tem consigo. No mundo há uma grande discussão, aliás, sobre o que deveria ser chamado o bem supremo. Mas qualquer que seja o que chamamos assim, por mais diferente que seja, é incrível quanta complexidade se prende ao esforço de alcançá-lo. O Cristianismo, ao contrário, ensina ao homem imediatamente o caminho mais curto para encontrar o que há de mais elevado: fecha tua porta e ora a Deus – pois Deus é que é o bem supremo. E se um homem tiver que sair pelo mundo, sim, aí talvez ele possa ir longe e andar em vão, dar uma volta ao mundo – e em vão, para procurar a pessoa amada ou o amigo. Mas o Cristianismo jamais incorre na falta de mandar uma pessoa andar, nem que seja um único passo, inutilmente; pois quando abrires aquela porta, que tu fechaste para orar a Deus, e saíres, então a primeira pessoa que encontrares é o próximo, que tu deves amar. Que coisa estranha! [...]

[...] De muitas maneiras se confundiu o cristianismo, mas entre elas também está uma em que, ao chamá-lo “o que há de mais elevado”, “de mais profundo”, dava-se a impressão de que o puramente humano se relacionaria com o essencialmente cristão do mesmo modo como o elevado se relaciona com o mais elevado e com o mais elevado de todos. Ai, mas essa é uma linguagem enganadora, que de maneira não verdadeira e imprópria faz o Cristianismo empreendedoramente querer insinuar-se na curiosidade humana e no gosto de suas novidades. Existirá por acaso alguma coisa que o homem como tal, que o homem natural mais cobice do que as coisas mais altas!  Tão logo um vendedor de novidades trombeteia que sua mais nova novidade é o máximo, ganha ávidos adeptos no mundo, que desde os tempos de antanho sempre experimentou uma indescritível preferência por (e sentiu uma profunda necessidade de) ser enganado. Não, as coisas do Cristianismo são certamente superiores e supremas, mas, é bom notar, de tal maneira que ao homem natural elas escandalizam. Aquele que ao definir o essencial do Cristianismo como o bem supremo deixa de lado a determinação intermediária do escândalo, peca contra ele, comete uma temeridade, mais abominável do que se uma honrada mãe de família se vestisse como uma dançarina, ainda mais terrível do que se João, o austero juiz, se trajasse como um janota. O essencialmente cristão é em si mesmo pesado demais, em seus movimentos sério demais para, dançando, mexer-se numa tal leviandade nessa conversação ligeira sobre o alto, o mais alto e o altíssimo. O caminho para o que é essencial no Cristianismo passa por dentro do escândalo. Com isso não se diz que o acesso ao essencialmente cristão teria que ser escandalizar-se dele, pois isso seria de uma outra maneira impedir-se a si mesmo de alcançar o cristão: mas o escândalo vigia no acesso ao essencial do Cristianismo. Feliz daquele que não se escandalizar por causa disso.

E o mesmo acontece com o mandamento de amar ao próximo. Confessa tu também - ou caso te deixe confundido o fato de se falar assim, pois bem, então eu mesmo confessarei que muitas vezes isso me repeliu, e que estou ainda muito longe da ilusão de que cumpro este mandamento, que justamente é um escândalo para carne e sangue, e uma tolice para a sabedoria. Se tu, meu ouvinte, és talvez, como se diz, um sujeito culto, muito bem, eu também sou culto; mas caso tu creias que com a ajuda da "cultura" chega mais perto daquele máximo, aí tu cometes um enorme erro. E aqui se esconde justamente o equívoco, pois cultura todos nós desejamos, e cultura sempre tem na boca a excelência, sim, nenhum pássaro que tenha aprendido uma única palavra fica gritando esta palavra tão incessantemente quanto a cultura grita pelo "bem superior". Mas o Cristianismo não é, de jeito nenhum, o "bem superior" da cultura, e o essencialmente cristão educa justamente através do choque de escândalo. Isso entenderás aqui imediata e facilmente; pois será que a tua cultura te ensinou, ou tu crês que o zelo de algum homem por conquistar a cultura já lhe ensinou a amar o próximo? Ai, ai, será que antes a cultura e o zelo com que ela é perseguida não desenvolvem uma nova espécie da diferença, a diferença entre o cultivado e o inculto? Apenas presta a atenção ao que é dito entre os cultos a respeito do amor natural e da amizade, quanta igualdade em termos de cultura o amigo precisa ter, quão culta e precisamente cultivada num certo modo a moça tem de ser; lê os poetas, que quase nunca conseguem manter a franqueza à poderosa dominação da cultura, dificilmente conseguem acreditar no poder do amor humano para romper as cadeias das diferenças - tu achas que esses discursos, esses poemas, ou que uma vida que se afina com esses discursos e esses poemas aproxima um homem de amar o seu próximo? Vê só, aqui foram excluídas de novo as marcas do escândalo. Pois imagina a pessoa mais culta de todas, aquela a quem todos nós admirando dizemos "ela é tão culta", e pensa então no Cristianismo, que diz a ela "tu deves amar o próximo"! Sim, uma certa urbanidade no trato, uma cortesia frente a todos os homens, uma amistosa condescendência para com os mais humildes, uma conduta franca diante dos poderosos, uma liberdade de espírito belamente dominada: sim, isso é cultura - tu crês que também é amar ao próximo?

O próximo é o igual. O próximo não é a pessoa amada, pela qual tu tens a predileção da paixão. O próximo não é, de jeito nenhum, se tu és alguém culto, a pessoa culta, com quem tu compartilhas a cultura - pois com o próximo tu compartilhas a igualdade dos homens diante de Deus. O próximo não é, de jeito nenhum, alguém que é mais distinto do que tu, isto é, ele não é o próximo na medida em que é mais distinto do que tu, pois amá-lo por ser ele mais distinto pode bem facilmente ser uma preferência, e nesse sentido amor de si mesmo. De maneira alguma o próximo é alguém que é mais humilde do que tu, isto é, na medida em que ele é mais humilde do que tu ele não é o próximo, pois amar alguém porque ele é mais pobre do que tu bem pode ser a condescendência da preferência, e nesse sentido amor de si mesmo.. Não, amar o próximo é igualdade. É estimulante em tua relação para com uma pessoa distinta, que nela tu devas amar o teu próximo; é bom para a tua humildade na relação com o mais humilde, que tu nele não tenhas de amar o mais humilde, mas sim devas amar ao próximo; é libertador, se tu o fazes, pois tu deves fazê-lo.  O próximo é todo e qualquer homem; pois pelas diferenças ele não é o teu próximo, nem mesmo pela igualdade contigo no interior da diferença em relação aos outros homens. Pela igualdade contigo diante de Deus ele é o teu próximo, mas esta igualdade absolutamente todo homem tem, e a tem incondicionalmente.



          Søren Kierkegaard



[1] Poeta aqui refere-se ao homem do estádio estético, preso ao sensual, que – para Kierkegaard – é identificado ao egoístico: aquele que ama por amor de si, transformando o outro em um segundo eu.
[2] Para Kierkegaard, Cristianismo nada tem a ver com um determinado corpus doutrinário de qualquer confissão religiosa instituída. Refere-se aos ensinamentos de Cristo encontrados no Novo Testamento e interpretados mediante sua experiência existencial concreta, podendo ter pontos de contato ou não com as tradições cristãs.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sagacidade temerária


Enganar-se a si mesmo quanto ao amor, é o mais horrível, é uma perda eterna, para a qual não há reparação nem no tempo nem na eternidade. Pois nos outros casos, por mais diversos que sejam em que se fala do ser enganado no amor, o enganado se relaciona mesmo assim com o amor, e o engano consiste apenas em que o amor não estava onde se acreditava estar; aquele, porém, que se engana a si mesmo excluiu-se a si mesmo e excluiu-se do amor. Também se fala de alguém ser enganado pela vida ou na vida; mas para aquele que numa autoilusão enganou a si mesmo quanto à vida, a perda é irreparável. Entretanto, mesmo aquele que ao longo de toda sua vida foi enganado pela vida, pode receber da eternidade uma copiosa reparação; mas o que se enganou a si mesmo impediu a si mesmo de conquistar o eterno. Aquele que exatamente por seu amor tornou-se uma vítima do engano humano, - oh, o que é mesmo que terá perdido, quando se mostrar na eternidade que o amor permanece, depois que cessou o engano! Aquele, porém, que - engenhosamente - enganou a si mesmo, caminhando sagazmente para a armadilha da sagacidade, ai, mesmo que durante toda a sua vida se considerasse feliz em sua ilusão, o que não terá ele perdido, quando na eternidade se mostrar que ele se enganou a si mesmo! Pois na temporalidade talvez um homem consiga prescindir do amor, talvez tenha êxito em evadir-se ao longo do tempo sem descobrir o auto-engano, talvez tenha sucesso no mais terrível, - numa ilusão, orgulhoso de - permanecer nela; mas na eternidade ele não pode prescindir do amor, e não pode deixar de descobrir que pôs tudo a perder. Portanto, onde a vida é tão séria, onde é tão terrível, senão justamente quando ela, punindo, permite ao voluntarioso fazer o que quiser, de modo que lhe permite ir vivendo, orgulhoso de ser enganado, até que um dia lhe permite reconhecer a verdade, de que se enganou a si mesmo eternamente! Verdadeiramente, a eternidade não deixa que escarneçam dela, antes é assim, que ela nem precisa usar do poder, mas poderosamente usa de um pouco de escárnio para punir de maneira terrível o temerário. Pois o que vincula o temporal e a eternidade, o que é, senão o amor, que justamente por isso existe antes de tudo, e permanece depois que tudo acabou. Mas justamente porque o amor é assim o vínculo da eternidade, e justamente porque a temporalidade e a eternidade são de natureza diferente, justamente por isso o amor pode parecer um fardo para a sagacidade terrena da temporalidade, e por isso na temporalidade pode parecer ao homem sensual um imenso alívio lançar para longe de si este vínculo da eternidade. O que se enganou a si mesmo crê, certamente, poder consolar-se, sim, até ter mais do que vencido; para ele se oculta, na presunção da tolice, o quão sem consolo é sua vida. Que ele "parou de se entristecer" não queremos negar-lhe; mas o que é que isso lhe adianta, se a salvação justamente consistiria em começar a entristecer-se seriamente sobre si mesmo!
O que se enganou a si mesmo crê talvez até poder consolar outros que foram vítimas do engano da infidelidade; mas que loucura, se aquele que já sofreu dano no eterno quer curar aquele que no máximo está doente para a morte! O que se enganou a si mesmo crê talvez até, por força de uma estranha autocontradição, ser solidário com o infeliz que foi enganado. Mas se prestares atenção ao seu discurso consolador e à sua sabedoria curativa, vais reconhecer o amor nos frutos: no amargor do escárnio, na agudeza dos argumentos, no espírito envenenado da desconfiança, no frio mordente do endurecimento, ou seja, nos frutos se reconhece que aí não existe nenhum amor.

Søren Kierkegaard

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Vísceras em festa



Ou pé na jaca
Ou terno e gravata
Seja como for
A vida tem me tratado assim

Exige de mim
Não pedaço
Nem bagaço
Mas me quer inteiro

Existência gulosa
De desejo profundo
Recipiente sem fundo
Que precisa absorver

Como criança levada
Não anseia muita coisa
Basta o chão da vida
Pra se lambuzar

Ah, Senhor!
Eu devia ter desconfiado
Que essa tal de plenitude
Não pode ser negociada

Mas circunscrito na razão
Como tolo me portei
Sem contudo perceber
A risível redução

Imerso em gratidão
E com as vísceras em festa
Celebro a integridade
Onde habita o TEu Sagrado

(15/01/2013)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Apocalipse 3



Morno equilíbrio
Chamasse instabilidade
Nada mudaria
Quase nada!

Armadilha perigosa
De resposta sem pergunta
Entre tantas outras
Só mais uma

Não vislumbra que a Vida
Simplesmente sendo
Divisão desconhece

Pesa daqui...
Pesa dali...
E o coração cindido
Apesar da pá de cal
Conservado fica

Não em graça abundante
Mas no joguete rasteiro
Das escolhas angustiantes

É preciso...
Não!
Não é preciso nada
Já basta
O inteiro é!

(14/01/2013)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Desisto!


[...]Tudo o que me caracteriza é apenas o modo como sou mais facilmente visível aos outros e como termino sendo superficialmente reconhecível por mim. Assim como houve o momento em que vi que a barata é a barata de todas as baratas, assim quero de mim mesma encontrar em mim a mulher de todas as mulheres.
A despersonalização como a grande objetivação de si mesmo. A maior exteriorização a que se chega. Quem se atinge pela despersonalização reconhecerá o outro sob qualquer disfarce: o primeiro passo em relação ao outro é achar em si mesmo o homem de todos os homens. Toda mulher é a mulher de todas as mulheres, todo homem é o homem de todos os homens, e cada um deles poderia se apresentar onde quer que se julgue o homem. Mas apenas em imanência, porque só alguns atingem o ponto de, em nós, se reconhecerem. E então, pela simples presença da existência deles, revelarem a nossa.
Aquilo de que se vive – e por não ter nome só a mudez pronuncia – é disso que me aproximo através da grande largueza de deixar de me ser. Não porque eu então encontre o nome do nome e torne concreto o impalpável – mas porque designo o impalpável como impalpável, e então o sopro recrudesce como na chama de uma vela.
A gradual desenraização de si mesmo é o verdadeiro trabalho que se labora sob o aparente trabalho, a vida é uma missão secreta. Tão secreta é a verdadeira vida que nem a mim, que morro dela, me pode ser confiada a senha, morro sem saber de quê. E o segredo é tal que, somente se a missão chegar a se cumprir é que, por um relance, percebo que nasci incumbida – toda vida é uma missão secreta.
A deseroização de mim mesma está minando subterraneamente o meu edifício, cumprindo-se à minha revelia como uma vocação ignorada. Até que me seja enfim revelado que a vida em mim não tem o meu nome.
E eu também não tenho nome, e este é o meu nome. E porque me despersonalizo a ponto de não ter o meu nome, respondo cada vez que alguém disser: eu.
A deseroização é o grande fracasso de uma vida. Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair – só posso alcançar a despersonalidade da mudez se eu antes tiver construído toda uma voz. Minhas civilizações eram necessárias para que eu subisse a ponto de ter de onde descer. É exatamente através do malogro da voz que se vai pela primeira vez ouvir a própria mudez e a dos outros e a das coisas, e aceitá-la como a possível linguagem. Só então minha natureza é aceita, aceita com o seu suplício espantado, onde a dor não é alguma coisa que nos acontece, mas o que somos. E é aceita a nossa condição como a única possível, já que ela é o que existe, e não outra. E já que vivê-la é a nossa paixão. A condição humana é a paixão de Cristo.
Ah, mas para se chegar à mudez, que grande esforço da voz. Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes de minha linguagem, existe como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa. A realidade antecede a voz que a procura, mas como a terra antecede a árvore, mas como o mundo antecede o homem, mas como o mar antecede a visão do mar, a vida antecede o amor, a matéria do corpo antecede o corpo, e por sua vez a linguagem um dia terá antecedido a posse do silêncio.
Eu tenho à medida que designo - e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.
E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.
A desistência é uma revelação.
Desisto, e terei sido a pessoa humana – é só no pior de minha condição que esta é assumida como o meu destino. Existir exige de mim o grande sacrifício de não ter força, desisto, e eis que na mão fraca o mundo cabe. Desisto, e para a minha pobreza humana abre-se a única alegria que me é dado ter, a alegria humana. Sei disso, e estremeço - viver me deixa tão impressionada, viver me tira o sono.
Chego à altura de poder cair, escolho, estremeço e desisto, e, finalmente me votando à minha queda, despessoal, sem voz própria, finalmente sem mim – eis que tudo o que não tenho é que é meu. Desisto e quanto menos sou mais vivo, quanto mais perco o meu nome mais me chamam, minha única missão secreta é a minha condição, desisto e quanto mais ignoro a senha mais cumpro o segredo, quanto menos sei mais a doçura do abismo é o meu destino. E então eu adoro.
Com as mãos quietamente cruzadas no regaço, eu estava tendo um sentimento de tenra alegria tímida. Era um quase nada, assim como quando a brisa faz estremecer um fio de capim. Era quase nada, mas eu conseguia perceber o ínfimo movimento de minha timidez. Não sei, mas eu me aproximava com angustiada idolatria de alguma coisa, e com a delicadeza de quem tem medo. Eu estava me aproximando da coisa mais forte que já me aconteceu.
Mais forte que esperança, mais forte que amor? Eu me aproximava do que acho que era - confiança. Talvez seja este o nome. Ou não importa: também poderia dar outro.
Senti que meu rosto em pudor sorria. Ou talvez não sorrisse, não sei. Eu confiava.
Em mim? no mundo? no Deus? na barata? Não sei. Talvez confiar não seja em quê ou em quem. Talvez eu agora soubesse que eu mesma jamais estaria à altura da vida, mas que minha vida estava à altura da vida. Eu não alcançaria jamais a minha raiz, mas minha raiz existia. Timidamente eu me deixava transpassar por uma doçura que me encabulava sem me constranger.
Oh Deus, eu me sentia batizada pelo mundo. Eu botara na boca a matéria de uma barata, e enfim realizara o ato ínfimo.
Não o ato máximo, como antes eu pensara, não o heroísmo e a santidade. Mas enfim o ato ínfimo que sempre me havia faltado. Eu sempre fora incapaz do ato ínfimo. E com o ato ínfimo, eu me havia deseroizado. Eu, que havia vivido do meio do caminho, dera enfim o primeiro passo de seu começo.
Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, eu era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois “eu” é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo. Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior – é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos. Mas agora, eu era muito menos que humana - e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano.
E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só posso me agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real.
E tal entrega é o único ultrapassamento que não me exclui. Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mas perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios: a atualidade simultânea não me assustava mais, e na mais última extremidade de mim eu podia enfim sorrir sem nem ao menos sorrir. Enfim eu me estendia para além de minha sensibilidade.
O mundo independia de mim – esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.


Clarice Lispector

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

É chegado o reino dos céus...



– Escuta, não te assustes: lembra-te que eu comi do fruto proibido e no entanto não fui fulminada pela orgia de ser. Então, ouve: isso quer dizer que me salvarei ainda mais do que eu me salvaria se não tivesse comido da vida... Ouve, por eu ter mergulhado no abismo é que estou começando a amar o abismo de que sou feita. A identidade pode ser perigosa por causa do intenso prazer que se tornasse apenas prazer. Mas agora estou aceitando amar a coisa!
E não é perigoso, juro que não é perigoso.
Pois o estado de graça existe permanentemente: nós estamos sempre salvos. Todo o mundo está em estado de graça. A pessoa só é fulminada pela doçura quando percebe que está em graça, sentir que se está em graça é que é o dom, e poucos se arriscam a conhecer isso em si. Mas não há perigo de perdição, agora eu sei: o estado de graça é inerente.
- Escuta. Eu estava habituada somente a transcender. Esperança para mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre, e me havia organizado depressa em pessoa porque é arriscado demais perder-se a forma. Mas vejo agora o que na verdade me acontecia: eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro.
Mas descubro que não é sequer necessário ter esperança.
É muito mais grave. Ah, sei que estou de novo mexendo no perigoso e que deveria calar-me para mim mesma. Não se deve dizer que a esperança não é necessária, pois isto poderia vir a se transformar, já que sou fraca, em arma destruidora. E para ti mesmo, em arma utilitária de destruição.
Eu poderia não entender e tu poderias não entender que prescindir da esperança - na verdade significa ação, e hoje. Não, não é destruidor, espera, deixa eu nos entender. Trata-se de assunto proibido não porque é ruim mas porque nós nos arriscamos.
Sei que se eu abandonar o que foi uma vida toda organizada pela esperança, sei que abandonar tudo isso - em prol dessa coisa mais ampla que é estar vivo - abandonar tudo isso dói como separar-se de um filho ainda não nascido. A esperança é um filho ainda não nascido, só prometido, e isso machuca.
Mas sei que ao mesmo tempo quero e não quero mais me conter. É como na agonia da morte: alguma coisa na morte quer se libertar e tem ao mesmo tempo medo de largar a segurança do corpo. Sei que é perigoso falar na falta de esperança, mas ouve - está havendo em mim uma alquimia profunda, e foi no fogo do inferno que ela se forjou. E isso me dá o direito maior: o de errar.
Escuta sem susto e sem sofrimento: o neutro do Deus é tão grande e vital que eu, não agüentando a célula do Deus, eu a tinha humanizado. Sei que é horrivelmente perigoso descobrir agora que o Deus tem a força do impessoal - porque sei, oh eu sei! que é como se isso significasse a destruição do pedido!
E é como se o futuro parasse de vir a existir. E nós não podemos, nós somos carentes.
Mas ouve um instante: não estou falando do futuro, estou falando de uma atualidade permanente. E isto quer dizer que a esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. Porque o Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca pára de ser. Somos nós que não agüentamos esta luz sempre atual, e então a prome temos para depois, somente para não senti-la hoje mesmo e já. O presente é a face hoje do Deus. O horror é que sabemos que é em vida mesmo que vemos Deus. É com os olhos abertos mesmo que vemos Deus. E se adio a face da realidade para depois de minha morte - é por astúcia, porque prefiro estar morta na hora de vê-Lo e assim penso que não O verei realmente, assim como só tenho coragem de verdadeiramente sonhar quando estou dormindo.
Sei que o que estou sentindo é grave e pode me destruir. Porque - porque é como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céus já é.
E eu não quero o reino dos céus, eu não o quero, só agüento a sua promessa! A notícia que estou recebendo de mim mesma me soa cataclísmica, e de novo perto do demoníaco. Mas é só por medo. É medo. Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.
E seu reino, meu amor, também é deste mundo. Eu não tinha coragem de deixar de ser uma promessa, e eu me prometia, assim como um adulto que não tem coragem de ver que já é adulto e continua a se prometer a maturidade.
E eis que eu estava sabendo que a promessa divina de vida já está se cumprindo, e que sempre se cumpriu. Anteriormente, só de vez em quando, eu era lembrada, numa visão instantânea e logo afastada, de que a promessa não é somente para o futuro, é ontem e é permanentemente hoje: mas isso me era chocante. Eu preferia continuar pedindo, sem ter a coragem de já ter.
E eu tenho. Eu sempre terei. É só precisar, que eu tenho. Precisar não acaba nunca pois precisar é a inerência de meu neutro. Aquilo que eu fizer do pedido e da carência esta será a vida que terei feito de minha vida. Não se colocar em face da esperança não é a destruição do pedido! e não é abster-se da carência. Ah, é aumentá-la, é aumentar infinitamente o pedido que nasce da carência.
[...] O leite da vaca, nós o bebemos. E se a vaca não deixa, usamos de violência. (Na vida e na morte tudo é lícito, viver é sempre questão de vida-e-morte.) Com Deus a gente também pode abrir caminho pela violência. Ele mesmo, quando precisa mais especialmente de um de nós, Ele nos escolhe e nos violenta.
Só que minha violência para com Deus tem que ser comigo mesma. Tenho que me violentar para precisar mais. Para que eu me torne tão desesperadamente maior que eu fique vazia e necessitada. Assim terei tocado na raiz do precisar. O grande vazio em mim será o meu lugar de existir; minha pobreza extrema será uma grande vontade. Tenho que me violentar até não ter nada, e precisar de tudo; quando eu precisar, então eu terei, porque sei que é de justiça dar mais a quem pede mais, minha exigência é o meu tamanho, meu vazio é a minha medida. Também se pode violentar Deus diretamente, através de um amor cheio de raiva.
E Ele compreenderá que essa nossa avidez colérica e assassina é na verdade a nossa cólera sagrada e vital, a nossa tentativa de violentação de nós mesmos, a tentativa de comer mais do que podemos para aumentarmos artificialmente a nossa fome - na exigência de vida tudo é lícito, mesmo o artificial, e o artificial é às vezes o grande sacrifício que se faz para se ter o essencial.
Mas, já que somos pouco e, portanto só precisamos de pouco, por que então não nos basta o pouco? É que adivinhamos o prazer. Como cegos que tateiam, nós pressentimos o intenso prazer de viver.
E se pressentimos, é também porque nós nos sentimos inquietamente usados por Deus, sentimos inquietantemente que estamos sendo usados com um prazer intenso e ininterrupto - aliás, a nossa salvação por enquanto tem sido a de pelo menos sermos usados, não somos inúteis, somos intensamente aproveitados por Deus; corpo e alma e vida são para isso: para a intertroca e o êxtase de alguém. Inquietos, sentimos que estamos sendo usados a cada instante - mas isso acorda em nós o inquietante desejo de também usar.
E Ele não só deixa, como necessita ser usado, ser usado é um modo de ser compreendido. (Em todas as religiões Deus exige ser amado.) Para termos, falta-nos apenas precisar. Precisar é sempre o momento supremo. Assim como a mais arriscada alegria entre um homem e uma mulher vem quando a grandeza de precisar é tanta que se sente em agonia e espanto: sem ti eu não poderia viver. A revelação do amor é uma revelação de carência - bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o dilacerante reino da vida.
Se abandono a esperança, estou celebrando a minha carência, e esta é a maior gravidade do viver. E, porque assumi a minha falta, então a vida está à mão. Muitos foram os que abandonaram tudo o que tinham, e foram em busca da fome maior.
Ah perdi a timidez: Deus já é. Nós já fomos anunciados, e foi a minha própria vida errada quem me anunciou para a certa. A beatitude é o prazer contínuo da coisa, o processo da coisa é feito de prazer e de contato com aquilo de que se precisa gradualmente mais. Toda a minha luta fraudulenta vinha de eu não querer assumir a promessa que se cumpre: eu não queria a realidade.
Pois ser real é assumir a própria promessa: assumir a própria inocência e retomar o gosto do qual nunca se teve consciência: o gosto do vivo.


Clarice Lispector

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Para de caô, professor!




 “Eu nasci numa favela. Fui maltratado, humilhado e excluído na escola. E eu jurei que nenhum aluno dos meus seria maltratado, humilhado ou excluído. Mas, quando fui trabalhar, não conseguia isso. Muitos reprovavam, apesar de eu dar aulas muito bem dadas. E o que me levou a mudar foi que eu percebi que uma aula não serve para nada. É prejudicial, é inútil. Só que eu não tinha outra forma de trabalhar. O modo como o professor aprende é o modo como o professor ensina; e tinham me ensinado assim e eu reproduzia. Quando eu percebi que eu não conseguia concretizar a minha vingança – digamos assim – de que todos aprendessem, eu comecei a sentir o chão fugindo dos pés porque eu percebia que não era dando aula que eu ia conseguir.” [1]

Como se sabe até mesmo no senso comum, o atual modelo de educação que vigora de maneira hegemônica em praticamente todo o mundo encontra suas raízes no Iluminismo e na já ultrapassada crença no progresso que decorre da acumulação de conhecimento. É, portanto, no contexto moderno de ascensão histórica de acumulação do capital – que propiciou esse tipo de crença – que a escola, na forma em que conhecemos atualmente, surge e se estabelece como essa espécie de redentora do indivíduo e, numa escala maior, da sociedade.
Junto com a escola, percebemos nascer, assim, toda uma crença e uma maneira de ver o mundo que enxerga o conhecimento como salvação. Nada muito diferente das antigas seitas gnósticas. Contudo, os tempos mudaram. E esse, talvez, seja o nosso grande consolo: o tempo – graças a Deus – passa. E, com ele, vêm as transformações.
Já em 1979 – há 33 anos, portanto –, Jean-François Lyotard chamava a atenção do mundo para aquilo que denominou A Condição Pós-Moderna, ou, simplesmente, O Pós-Moderno. No entendimento do filósofo francês, essa nova fase por que passam as sociedades desenvolvidas teria como característica principal justamente o processo de descrença generalizada nos metarrelatos totalizantes que até então tinham sido responsáveis por oferecer legitimação ao conhecimento durante toda a Modernidade.
A análise de Lyotard, como ele bem ressalta, não apresenta a pós-modernidade em sentido cronológico, como apenas um período novo da história do pensamento, mas concentra-se, sobretudo, nas alterações estruturais por que passaram a natureza do saber diante do elevado nível de desenvolvimento tecnológico que tem se observado nos países ricos nos anos recentes.
Nesse sentido, o que o filósofo pós-moderno nos traz é que a revolução técnico-científica – com o desenvolvimento das complexas redes de comunicação e armazenamento de dados –, somada a esse processo já citado da deslegitimação decorrente da perda da força dos grandes relatos unificadores de sentido, fez com que o essencial do transmissível passasse a ser constituído por um estoque organizado de conhecimentos. Num contexto como esse, a previsão de Lyotard foi de que a era do professor não estaria longe de seu fim.
Hoje, passados mais de trinta anos dessa afirmação, diria que a profecia está mais perto do que nunca de se cumprir. Não por concordar plenamente com a perspectiva lyotardiana sobre o pós-moderno, mas por considerar que a essa altura do campeonato, a modernidade não pode continuar a ser considerada um projeto inacabado – como queria Habermas – mas, sim, um projeto falido. Acabou. Simples assim. E embora ainda permaneça uma espécie de resistência nostálgica por parte de alguns, até onde posso perceber, acabará cada dia mais.
Assim, àqueles que se sentem vocacionados e chamados para trabalhar com educação nesse início de século XXI, daria o seguinte conselho: parem de acreditar que repetindo as mesmas estratégias terão resultados diferentes. De fato, essa é sempre uma opção, mas, tenho a impressão de que, na área da educação, já estamos batendo na mesma tecla há muito tempo. Continuar, embora constitua sempre uma opção, seria pura perda de tempo.
Enquanto não nos dispusermos a pensar outro paradigma que contemple as peculiaridades do novo tempo, continuaremos amarrados ao reformismo conservador dos que gostam das mudanças, mas precisam sobreviver. Muitas vezes a impressão que fica é que queremos transformar o mundo, mas no fundo – no fundo mesmo – não queremos tanto assim. Conforto é bom, e todo mundo sabe. O que se pede é só um pouquinho de honestidade. Consigo mesmo, acima de tudo.
Se ainda assim, a vontade for verdadeira, parece que nem tudo está perdido. Sim, é possível. Não porque exista uma tese de doutorado que comprove, mas porque, simplesmente, na vida real, já existem diversos exemplos que podem servir de inspiração. Em outras palavras: alguém já fez!
As palavras entre aspas que abrem esse texto, por exemplo, foram transcritas de uma entrevista do professor José Pacheco – idealizador da Escola da Ponte, em Portugal –, a quem tive o prazer de ouvir pessoalmente no mês passado. Creio que seu ponto de vista, apesar de, certamente, causar estranhamento aos mais tradicionais, deve, no mínimo, ser levado em consideração por todo aquele que diz – em 12/12/2012 – se preocupar com educação.
No entendimento do educador português, a escola [2] é, tradicionalmente, um lugar de humilhação. Tendo conhecido a exclusão na pele durante sua “formação” – como todos nós, diga-se de passagem – Pacheco decidiu fazer diferente de nós. Sem nunca ter se matriculado numa faculdade de filosofia, Pacheco fez Filosofia.
Foi quando percebeu que estava apenas reproduzindo aquilo por que tinha passado quando aluno, que começou a se perguntar pelo sentido do que estava fazendo. Quem disse que é necessário haver uma aula para que alguém aprenda alguma coisa? Não havia resposta. Apenas a realidade afirmando o contrário: apesar das aulas, os alunos não aprendem. Não todos.
E isso incomodava Pacheco. Como pode pessoas tão diferentes, com tantas singularidades, com talentos diferentes, dificuldades diferentes, gostos diferentes serem submetidas a uma única forma de aprender e avaliar? Não apareceu um professor para responder. Pacheco permaneceu sem resposta e prosseguiu em sua busca.
Qual o sentido de se fazer uma prova? – indagava Pacheco já angustiado. Nenhum – ele mesmo respondeu, percebendo que não apareceria nenhum justo. Ora, pois, a prova não serve para nada! Quem sabe o que está sendo perguntado já sabe, e seria melhor que usasse seu tempo com qualquer outra coisa de seu interesse. Quem não sabe, passará uma hora olhando para uma folha de papel em branco e, ao final, continuará sem saber. Seria melhor aproveitar o tempo para aprender.
Não fazia sentido. Pacheco olhava para a escola e via alunos sendo tratados como em uma linha de montagem. Não havia respeito pelas individualidades e a dignidade humana era pisada. Até a realidade era menor. Também, não era para menos. Não havia um que cresse na riqueza da simplicidade que constitui o real. Não fazia sentido. Simplesmente não fazia sentido, foi o que Pacheco concluiu 3 anos antes de Lyotard publicar o livro que “inaugurou” a pós-modernidade.
Hoje, passados mais de trinta anos da reviravolta que Pacheco iniciou em sua própria vida, a Escola da Ponte é referência mundial e acho que posso considerá-lo bem sucedido em sua jornada. Não é o objetivo dessa reflexão, entretanto, analisar as estratégias utilizadas por ele em seu processo de construção, como se isso, de alguma forma, nos garantisse uma saída. Esse tipo de mentalidade – felizmente – parece já ter sido enterrado junto com a Modernidade.
O ponto central que tenciono destacar nessa breve reflexão sobre a educação contemporânea, por outro lado, é o papel do professor diante de uma realidade dura que, muitas vezes, se apresenta como uma sinuca de bico. E, em especial, o papel do professor de filosofia.
Creio que, diante da própria natureza da filosofia, a última coisa que os professores de filosofia deveriam fazer é tentar ensiná-la. Afirmo isso não por crença religiosa, convicção ideológica ou porque li em algum livro. Mas, porque, como aluno, tenho a experiência concreta e real de que não funciona. Pelo contrário, a nítida sensação que tenho é de que, não raras vezes, a universidade está atrapalhando meus estudos.
Portanto, penso que, antes de empreender tempo tentando tapar buracos de um sistema educacional que nasceu com prazo de validade vencido, a principal missão do “professor” de filosofia hoje – e sempre, talvez – é pensar a si mesmo. Questionar até que ponto se deseja realmente cooperar com a construção de uma sociedade que tenha lugar para todos, possuindo ela instituições formais de ensino, ou não.
Quando tivermos passado dessa fase, creio que as questões referentes às metodologias de ensino e sistemas de avaliação terão desaparecido. Teremos, então, aprendido – bem à moda freireana – que não ensinamos nada a ninguém, mas – antes – aprendemos uns com os outros. E, assim, parece tudo tão mais humano... que a última linha desse texto já me arranca até um sorriso de esperança.



[1] Texto transcrito de uma entrevista de José Pacheco. Disponível em < http://www.youtube.com/watch?v=Ad3cRwbI4DU > Acesso em 11/12/2012.
[2] José Pacheco fala da escola, mas – visto que o modelo é exatamente o mesmo – pode-se, perfeitamente também, pensar na universidade.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Consciência Média





Coração agitado
Olha pra fora
E angustiado fica

Precisa fazer
Não importa o quê
Pra se justificar

Chega no morro
Quer logo ajudar...

Só não entende
Quando de repente
Recebe um não de cá

É que no morro
Não tem bobo não...

Como manda
A boa educação
É melhor chegar devagar

Já que a subida é boa
Vale até tirar o salto...

A favela recebe bem
Mas é bom nunca esquecer
Que aqui não é asfalto

Igualdade é bonitinho
Pra quem cresceu
Com leite ninho

Mas a favela foi forjada
Na base da porrada...

Me desculpa meu amigo
Se eu não tive a consciência
Tantas vezes esperada

É que na favela
 Geralmente
Boa intenção de classe média
Termina em presepada

(26/11/2012)



sábado, 13 de outubro de 2012

Hannah Arendt e o caráter da dúvida cartesiana


Diferente de outros autores que geralmente apresentam a dúvida cartesiana simplesmente como um método de especulação, Hannah Arent entende que esta teria um alcance muito mais abrangente. Para a autora, o tipo de dúvida proposto por Descartes tinha um caráter muito mais inclusivo, visto que objetivaria um fim fundamental demais para ser motivada por conteúdos assim tão concretos (Cf. ARENDT, 1981, p.286).

No entendimento da filósofa alemã, a dúvida estava para a modernidade, assim como o thaumazein estava para o pensamento grego. A invenção do telescópio teria tido uma importância fundamental nessa nova atitude diante do mundo e da realidade. Enquanto os gregos, na busca pelo conhecimento, apresentavam uma postura de assombro diante de tudo o que é como é, valorizando a observação, a contemplação e a especulação, Descartes, agora alertado pelo enganoso conhecimento dos sentidos e da própria razão, revelado pela nova descoberta, introduz a dúvida como a única certeza capaz de levar o homem a um conhecimento que seja fixo e seguro.


 “A antiga oposição entre a verdade sensual e a verdade racional, entre a capacidade inferior dos sentidos e a capacidade superior da razão no tocante à apreensão da verdade, perdeu sua importância ao lado desse desafio, ao lado da óbvia implicação de que a verdade e a realidade não são dadas, que nem uma nem outra se apresenta como é, e que somente na interferência com a aparência, na eliminação das aparências, pode haver esperança de atingir-se o verdadeiro conhecimento” (Ibidem, p. 287).

        
          Assim, marcada a separação total entre o Ser e a Aparência, a dúvida cartesiana terá como principal característica a sua universalidade, questionando todo e qualquer pensamento ou experiência. É interessante perceber que Descartes não duvidava simplesmente de que a compreensão humana tivesse acesso a toda verdade ou que a visão do homem pudesse tudo ver. Assim como a inteligibilidade à compreensão humana não constituía demonstração da verdade, a visibilidade também não seria suficiente para provar a realidade (Cf. Ibidem, p. 288). Dessa maneira, a dúvida proposta por Descartes é uma dúvida que duvida da própria existência da verdade, ou, pelo menos, do tradicional conceito de verdade, que “valera-se do duplo pressuposto de que o que realmente existe se revelará por si mesmo e que as faculdades humanas são adequadas para recebê-lo” (Ibidem, p. 288).

            Diante dessa nova percepção do mundo, o que se segue é que uma nova moralidade se constrói. Paradoxalmente, com a perda da certeza da verdade, daquilo que se recebia pela razão ou pelo testemunho dos sentidos, o homem moderno acabou por desenvolver um maior zelo pela veracidade. E até mesmo na esfera religiosa, onde não se deixa de crer na salvação, mas perde-se a certeza dela, percebe-se um maior cuidado em relação à prática de boas obras. Em sentido estrito, é “como se o homem só pudesse dar-se ao luxo de mentir enquanto estava seguro da existência imutável da verdade e da realidade objetiva, que certamente sobreviveriam e derrotariam as suas mentiras” (Ibidem, p.290).

Não é de se espantar também que as sociedades eruditas e as Academias Reais tenham se tornado os grandes centros de influência moral na modernidade (Cf. Ibidem, p.291). As próprias virtudes cardeais modernas – como o sucesso, a industriosidade e a veracidade – acabaram por moldar toda uma nova forma de fazer ciência.


“Onde antes a verdade residira no tipo de theoria que, desde os gregos, significara a contemplação do observador que se preocupa com a realidade aberta diante de si, a questão do sucesso passou a predominar, e a prova da teoria passou a ser uma prova prática – ou funciona ou não. O que era teoria virou hipótese e o sucesso da hipótese virou verdade” (Ibidem, p.291).


            Com isso, mesmo que a verdade não existisse, havia o entendimento de que o homem poderia ser veraz, assim como poderia ser confiável ainda que não existisse propriamente uma certeza confiável. Em um mundo onde tudo tinha se tornado duvidoso, a única certeza que restou foi a dúvida. Assim, a formulação clássica “cogito ergo sum” foi entendida por Hannah Arendt mais como uma generalização de um “dubito ergo sum” do que uma confiança exacerbada no pensamento. Afinal, foi através da certeza da dúvida que Descartes concluiu que os processos ocorridos na mente humana possuem certeza própria e, por isso, tornam-se aptos a serem objetos de investigação na introspecção.

Referências bibliográficas:

- ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária, 1981.